sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

OS QUE JULGAM TRAZER O REI NA BARRIGA!

Há histórias fantásticas, a que o tempo confere redobrada força, pois não faltam comportamentos de sujeitos que se julgam o centro do mundo e que, alarvemente, alardeiam uma condição de superioridade colhida no berço ou expropriada a um status social negociado no mercado das conveniências, onde o dinheiro confere poderes. É sempre de proveitosa leitura aquele grosso volume, intitulado "Discurso Sobre as Obrigações do Vassalo", que estabelece a dicotomia das servidões.
Porque os tempos vão como vão, é que me apetece repetir uma história contada aqui há bastante tempo, colhida de uma crónica antiga de António Valdemar. Ele, que em questões de memória é imbatível, contou a extraordinária história passada entre o corregedor de Santarém e o duque do Cadaval. Valdemar descreve o poder do duque, "símbolo de abastança económica e domínio político" que "de Melgaço a Lagos, até possuía estradas e caminhos próprios". Por essa condição, não hesitava em tratar qualquer pessoa por tu. Ora, o corregedor de Santarém não lhe permitiu tal atrevimento. Retorno a António Valdemar: "Na Biblioteca Nacional de Lisboa existe uma carta ao duque do Cadaval, enviada pelo corregedor de Santarém, insurgindo-se contra essa abusiva forma de tratamento. Talvez seja interessante conhecer o conteúdo da carta, encabeçada por dois superlativos conspícuos e concluída sob os respeitosos auspícios da Divina Providência: “Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor: Se o meu nascimento me pôs nas circunstâncias de V. Ex.ª me tratar por tu... caguei para o nascimento; se o meu honrado cargo, que há muito exerço, de corregedor de Santarém permite que V. Ex.ª me trate por tu... caguei para o cargo. Mas se nem uma nem outra condição consentem semelhante linguagem... caguei para o tratamento. Queira, pois, V. Ex.ª elucidar-me para saber se posso cagar para V. Ex.ª. Deus guarde V. Ex.ª.: O corregedor de Santarém”. 
Não faltam por aí sujeitos, com roupagens nobres e veneras, que julgam ter o rei na barriga, que bem mereciam, também, o vernáculo do corregedor. É que, às vezes, não há mesmo pachorra para a sua estupidez e sobranceria.

1 comentário:

  1. Concordo. E espero que não me apareçam à frente porque essa gente sempre me desapetece. Mas me falta coragem de corregedor. E é um espectáculo triste a jactância. Falando do alto da sua superioridade parva.

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