terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

"TUDO ESTÁ ARMADILHADO"

A indisfarçável azia de partidos de direita e dos comentadores e jornalistas que vêm trazendo pela trela, com a aprovação do Orçamento do Estado, reflecte, sobretudo, a incomodidade pelo facto da esquerda, pela vez primeira, materializar um acordo parlamentar de apoio ao governo do PS. A reversão social de muitas das políticas do governo de direita, é o verdadeiro cimento que garante a estabilidade do governo de António Costa. Curioso é que, aprovado o Orçamento, logo surgiram as habituais Cassandras de circunstância a efabular cenários de futuras crises, ao mesmo tempo que agitam espantalhos da Comissão Europeia e dos Mercados, cujas vergonhosas chantagens eles aplaudem, de alma e coração.
Pacheco Pereira, mais uma vez, fez no último artigo publicado no "Público" uma radiografia à situação actual, avisando que "Tudo está armadilhado". Aconselhando a sua leitura, tomo, no entanto, a liberdade de uma comentário genérico, sublinhando algumas das passagens do texto.
"Se Costa não tivesse rompido com o “arco de governação”, a governação PSD-CDS continuaria exactamente a mesma política, porque ela é pensada como sendo para 20 ou 30 anos, como se isso fosse possível em democracia e, como não teria resultados, teria que ser eterna. Para ser “eterna” teria que ser cada vez mais autoritária, como já estava a ser", lembra o historiador que, mais adiante, assinala que "no actual contexto europeu, o que se está a passar em Portugal, sendo na verdade apenas uma tímida mudança,  é tratado quase como uma revolução e, como tal, mobiliza as gigantescas forças que estão preparadas para matar no ovo qualquer desvio menor que seja ao cânone alemão". E depois: "O governo de Costa tem todas as probabilidades de ser derrubado pela Europa do PPE e dos socialistas colados aos alemães, seja directamente por um qualquer “chumbo” europeu, seja indirectamente pela obrigação de aplicar políticas que lhe retirem o apoio parlamentar do BE e do PCP. O Orçamento de 2016 foi apenas uma amostra e o governo saiu já bastante magoado dessa amostra, que lhe abastardou a política que pretendia seguir, criou desconfianças e distâncias com os seus aliados e colocou-o junto da opinião pública como um governo fragilizado, errático nas finanças e na economia, mesmo incompetente. O comportamento europeu para as décimas do défice, a sucessão de declarações hostis sobre os “riscos” da política portuguesa de incumprimentos vários às “regras” do Tratado Orçamental, contrasta com a complacência face a idênticos incumprimentos do governo anterior, que, como era “amigo”, tinha margem de manobra e podia no fim esnobar dos relatórios do FMI, que hoje brande contra o PS. Aliás, a dureza e hostilidade que existem contra o governo de Costa, contrastam com a vontade dos principais dirigentes europeus darem a Cameron medidas que significam recuos importantes (e que também estão nos Tratados) em matéria de liberdade de movimentos e direitos sociais dos emigrantes, para que este volte com um frágil papel para convencer os eleitores ingleses que afinal, com uma longa lista ainda podem continuar na Europa. Ou seja, em matéria de direitos sociais, a mesma Europa que não cede a Portugal uma décima no défice sem vilipendiar um governo eleito, está disposta a abdicar perante a pressão inglesa. Na economia do “ajustamento”, não há um milímetro de cedência às “regras”, nos direitos sociais, tudo é negociável.  Por tudo isto, a “Europa” actual, Schäuble, Dijsselbloem, Moscovici, Dombrovskis, mais as suas cortes de funcionários zelosos, a última coisa que desejam é que possa haver qualquer mitigado sucesso de um governo que está a cometer esse crime de lesa-economia que é “reverter” salários e pensões, taxar fundos e bancos e não ao contrário".
Para Pacheco Pereira, "o braço armado desta política é, hoje, em Portugal o PSD de Passos, que está convencido de que o seu regresso ao poder é a curto prazo" e "Passos continua a comportar-se como se fosse  um primeiro-ministro usurpado, de bandeirinha governamental na lapela, a fazer falsas inaugurações, e ainda na Europa, o seu grande aliado, a instigar a fronda contra a política do Governo e a falar para as agências de raiting  e os mercados mostrando-lhes qual o sentido político que pode ter em Portugal uma subida de juros ou uma abaixamento de raiting:destruir o governo deles".
É neste contexto que Pacheco Pereira avisa: "PS, BE e PCP ou reforçam de qualquer modo a coordenação política, que lhes permita ganhar algum ânimo colectivo e defrontar em conjunto e de forma capaz toda a tempestade que cai e vai cair sobre o Governo, ou vão ter um lindo enterro. Lindo porque deve estar sol, mas só por isso".
Pensemos nisso.

Sem comentários:

Enviar um comentário