terça-feira, 1 de março de 2016

AQUILINO, SÓ PARA LEMBRAR

Um dos temas que Aquilino aborda, com alguma persistência, no seu mundo ficcional, é a questão da Justiça, e mal ele saberia que mais tarde, já no ocaso do seu lavrar como criador da Língua, haveria de estar a contas com ela, por via do seu romance "Quando os Lobos Uivam", em que o velho lobo serrano fez o seu guinhol (palavra de que ele gostava) para denunciar usurpação de direitos seculares de populações da Beira (os baldios) e a superestrutura do aparelho repressivo dos Tribunais Plenários, que eram braço armado da PIDE e da ditadura.
Os meus leitores já devem ter notado, que eu vou muito ao universo criador de Aquilino, na tentativa de falar de um dos grandes construtores da Língua Portuguesa, que as escolas atiraram para o desvão do esquecimento e a estupidez mandante em Portugal decidiu matar, pelo silêncio -- não há pior morte para um escritor. E, no entanto, poucos como ele fizeram da escrita um trabalho de rigor, edificando uma obra fabulosa, de funda identidade, com páginas em que o autor de O Malhadinhas cavou fundo à procura de tesouros de dimensão universal.
Podem, por isso, os analfabetos de serviço ignorar Aquilino, que eu cá o vou relendo, e relendo-o, como dizia Henry Miller dos seus autores dilectos, é como se falasse com ele. Tenho andado a buscar horizontes vastos em algumas das suas páginas. Vou muitas vezes à Aldeia - Terra, Gente, Bichos, e ainda tenho fresca na memória a saga que ele escreveu, O Romance de Camilo, três volumes notáveis em que ele pinta o genial escritor com rugas e arestas, mas dá, também, toda a grandeza de Camilo, outro construtor da Língua.
Então, pararam-me os olhos em reflexões de Aquilino sobre a Justiça. Atentem nesta página recolhida em Aldeia - Terra, Gente, Bichos:

"A aldeia bárbara, petrificada através de séculos de bronquidão, teve a certa altura do seu ser, surdo e inflexível como fluxo duma ribeira, um sobressalto. Foi quando em virtude duma reforma administrativa, que tomava como princípios basilares a distância geográfica e a densidade populacional, lhe coube ficar cabeça de concelho. Siderados de todo, com a boca fendida até para lá dos zigomas, viram os serranos um belo dia apear de bestas de alquiler os oficiais da Correição e, logo de seguida, percorrer beco a beco, casa a casa, em busca dos locais em que instalar a senhora Cãmara, a Roda dos expostos e a Cadeia, as três pernas, ao que consta, da trípode municipal. À falta de edifícios, nobilitados por lavor de escola ou insígnia heráldica, decidiram-se por tais e tais espeluncas, lojas de gado e moradias devolutas.
Felizmente estes agentes da Casa do Cívil eram todos do barro daquele juiz de Barrelas que dava audiência sentado no cabeçalho do carro ou comendo o caldo com a tigela empoleirada na palma da mão esquerda. Chamado à Corregedoria da Comarca a explicar-se acerca de sentença anfibológica: "Vi e não vi; sei e não sei; corra a água ao cimo; deite-se fogo à queimada; seja o réu enforcado em nó que não corra, etc; como não lhe oferecessem cadeira, tirou a capucha de burel e, dobrando-a tantas vezes quantas era necessário para formar um assento razoável, sentou-se nela.  Retirava-se, tendo dito da sua justiça, quando o desembargador lhe disse:
-- Olhe a capa...
-- O juiz de Barrelas não tem costume de levar o banco em que se senta -- respondeu com altivo desdém."
Em O Romance de Camilo, Aquilino escreve:

"Deixar-se ir para juízo sem estrebuchar, não. Tão-pouco, deixar sem aparo aquela criatura que desencaminhou. Mas a justiça portuguesa, além de zorreira e minuciosa, era destituída de contemplações com os que sofriam. Notabilizava-se também por ter estômago de jibóia. Devorava os demandistas. Noutros tempos uma das pragas das rameiras: oxalá que a justiça te caia em casa!
Quer dizer, a justiça, em vez de ser bem-vinda nos negócios e vida do cidadão, quando se corporizava em seus ministros e agentes, era temida como uma flagelo. Nesta terra, assinalada pela brandura dos costumes, mostrava-se umas vezes tão frouxa que deixava morrer os presos sem julgamento, outras vezes tão lassa, que os criminosos andavam à solta e ninguém lhes ia à mão. Não raro tomava-se de marasmo, e só para desentorpecer era um castigo."

Aquilino, só para lembrar.

1 comentário:

  1. Dá gosto ler Aquilino. Ele inaugura uma gramática depurada e simultaneamente pródiga. Mas é como diz, os livros dele não são lidos. E é uma pena.

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