quarta-feira, 23 de março de 2016

AS VÍTIMAS DE BRUXELAS

As vítimas de Bruxelas somam-se a milhões de outras vítimas sepultadas pela história, no longo registo de violências absurdas e demenciais. Mas as vítimas de Bruxelas inscrevem-se num capítulo que tem a ver, também, com a crise civilizacional em que uma outra banalidade do mal parece estar de regresso ao quotidiano, com o seu longo cortejo de crimes, de insegurança, de atentados. Agora, a realidade de um terrorismo de novo tipo cria a insegurança à escala global.
Vivemos um tempo de guerras prolongadas, e, por isso em larga medida esquecidas; vivemos dias de inquietação pela morte gratuita que pode acontecer, nos lugares mais comuns da realidade urbana, em que o selo colectivo da morte se cruza com o cidadão comum num aeroporto, num metro, num autocarro, numa praça, numa rua, num espectáculo; criou-se um tempo em que o apelo ao radicalismo e à morte representa a morte da humanidade, todos os dias.
As vítimas de Bruxelas, o massacre dos inocentes, devia levar-nos também a pensar nos sujeitos que abriram a Caixa de Pandora da violência, inventando guerras absurdas que conduziram não à instabilidade regional ou a uma paz instável, mas a uma "guerra" que alastra por todo o lado e nos deixa atónitos com os atentados, como o de Bruxelas, no coração da Europa. Vejo a crónica do drama de Bruxelas e olho para trás. E lá vem, à tona da memória, os sorrisos criminosos do senhor Bush, do senhor Blair, do senhor Aznar, do senhor Barroso, responsáveis hoje por boa parte da violência que por aí vai, e que, no entanto, sabemos que jamais haverá um Tribunal Internacional que os chame à pedra e os responsabilize moralmente pelo que aconteceu no Iraque e depois no Afeganistão ou na Líbia ou na Síria, ou...
Os olhos dos cadáveres de Bruxelas estão fechados, mas terão sempre uma dimensão acusadora sobre as circunstâncias e o contexto do seu drama. Dizer que o mundo está hoje cada vez mais perigoso é um lugar comum, mas que traduz, também, a dimensão do medo que está a envenenar o mundo.
Olho para as imagens de Bruxelas, leio as narrativas da tragédia, e só me ocorrem os primeiros versos daquele fabuloso poema de Jorge de Sena, a propósito dos fuzilamentos de Goya: "Não sei meus filhos, que mundo será o vosso..." Paremos então um pouco para ouvir Jorge de Sena.


1 comentário:

  1. Dizemos uns para os outros estas coisas que são verdade. Dizemo-las com esta ou outra forma. Dizemo-las sentindo-as, que é sempre a melhor forma de saber coisas desta qualidade. Mas os párias não as ouvem e ouvi-las não mudava nada, eram apenas som, fonemas.
    Não saber parar este tipo de desgraça, atinge-me.

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