segunda-feira, 28 de março de 2016

BRASIL, BRASIL!

O BRASIL DE PORTINARI
Era num dos telejornais e a crónica alargou-se por largo tempo para contar as tropelias de 200 pessoas (dizia a repórter), na Avenida Paulista. Eu ouvi, de novo, e acrescentei para mim que eram duas centenas de arruaceiros, a queimarem as efígies de Dilma e de Lula, numa expressão fascizante de intolerância e de boçalidade, de analfabetismo puro, de apelo à violência gratuita, saudosos porventura dos musculados militares da ditadura militar, que pôs o Brasil a ferro e fogo. Há muitos apelos de regresso ao passado, numa comunicação orquestrada que alimenta a direita e a extrema-direita. Fazer notícia de uma manifestação de 200 pessoas em S. Paulo, diz tudo sobre o jogo de mistificação que por aí vai e que se transforma num espectáculo deplorável. Se há corrupção, investigue-se e julgue-se, mas não se passe o tempo a jogar pedradas no charco, nem se promova a indignidade ou ou se transforme a justiça num acto mixordeiro de arremesso.
O Brasil, que evoca em mim tantas imagens boas, olho sempre para ele como a pátria de Portinari ou Villa-Lobos, de João Cabral ou Erico Veríssimo, dos poetas enormes como Manuel Bandeira ou Carlos Drummond de Andrade, o Brasil de uma cultura tão poderosa e original que se faz música com Vinicius, com Chico Buarque ("bonita festa, pá!"), com Gilberto Gil ou Caetano Veloso, com a Ellis Regina a embalar-nos nas "águas de Março" ou a Maria Bethânia, com a sua voz tão quente e original a semear amor. É esse Brasil, o Brasil da liberdade, o Brasil que faz milagres na Língua portuguesa, que eu amo e não dispenso como aventura criadora de dimensão universal.
E agora? Ontem, no "Público", Alexandra Lucas Coelho publicou uma crónica admirável, com o sugestivo título "O que Portugal tem a ver com o Brasil",  em que contextualiza a história do Brasil, nos 322 anos de ocupação portuguesa e nos 194 de independência. A determinada altura do texto, lembra Alexandra Lucas Coelho: "A violência sistémica brasileira tem raízes nas duas violências fundadoras da colonização portuguesa, extermínio indígena e escravatura africana. Os portugueses não inventaram a escravatura, mas inauguraram o tráfico em grande escala. Dos 12 milhões de indivíduos que as potências europeias deportaram de África até ao século XVIII, 5,8 milhões foram traficados por Portugal. Isto significa 47 por cento, ou seja, quase metade do tráfego foi assegurado por Portugal, e a grande maioria destinava-se a sustentar a sustentar a colonização do Brasil (...)".
Talvez aí radiquem muitas das questões por que o tempo fica lento para poder transformá-las.
Só podemos desejar é que no Brasil, à dimensão da sua continentalidade, onde houve, de facto, redistribuição da riqueza, saída de 18 milhões da pobreza, um combate decisivo, embora ténue, contra as desigualdades, não se verifique um retrocesso social, um regresso ao passado, àquele passado em que o homem é a medida de coisa nenhuma.
Agora, vou ouvir a música e a poesia do Chico Buarque, para ouvir os sons do Brasil que eu amo.

1 comentário:

  1. Faço meus os seus votos. A justiça por vezes não abre portas ao que é justo. E nem sabemos se é isso que pretende.Que o povo brasileiro não se engane nem deixe enganar.

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