quarta-feira, 2 de março de 2016

CHEFES E ALMAS MORTAS


Para a Eugénia, que me contou uma história

Na literatura universal e muito na dramaturgia, não faltam exemplos de personagens que parece terem saído de armários repletos de fantasmas e teias de aranha para se apropriarem de quotidianos avulsos e inquinarem a felicidade dos outros. A ficção e a narrativa dramática retirou-os da realidade e recriou-os, com pinceladas de ironia, visando a caricatura de mundos que ao longo dos tempos envenenaram as sociedades.
Nesses abencerragens, que vieram ao mundo para infernizarem a vida das pessoas de bem, situa-se com relevo a figura do chefe ou dos chefes. São de todos os tempos e de todos os lugares, às vezes figuras tristes e sem interesse, que enchem o peito de ar como suporte de autoridade e arrastam pelas horas a sua irrelevância. O anedotário está cheio de histórias bacocas de chefes. Que seria do humor dos povos sem os chefes?
Vêm do fundo dos tempos, com o seu arcaísmo mental, a sua falta de decência (sabem lá o que isso é!), exercitam a estupidez com aquela agilidade com que C. Cipola definiu as suas várias categorias. Geralmente, porque o não sabem fazer, odeiam quem pensa - sobretudo quando o pensamento se eleva em voz alta. Há muitos anos, um desses tipos, chefe arvorado, desfeiteado pela inteligência do interlocutor, disparou-lhe, num propósito de humilhação, que é sempre a arma dos imbecis:
-- O senhor não está aqui para pensar!
Comportamentos destes reproduzem-se no tempo. Não se lembram do que Antero respondeu ao chefe da polícia, que proibia as Conferências do Casino:
--Mas Ex.mo Senhor será possível viver sem ideias?
O ódio ao acto de pensar tem,aliás, raízes fundas nos universos totalitários ou de ditadura. Hannah Arendt tem uma reflexão muito interessante sobre a questão: "A humanidade viva de um homem declina na medida em que ele renuncia a pensar".
Isto explica tudo. Mas regresso novamente ao fenómeno literário que tanto fustigou essa fauna, que Camilo tinha dificuldade em classificar numa escala zoológica... A Gogol (e a Tchekov também) não escaparam esses pitorescos sujeitos. Em Almas Mortas fez este fabuloso retrato de um Chefe:
«Agora suponhamos por exemplo que entramos numa repartição pública e que nessa repartição há um chefe. Vejamos como ele se comporta no meio dos seus subordinados. Quando o ouvimos dar ordens, quase ficamos mudos de medo. O seu rosto respira nobreza, orgulho e sabe Deus o que mais! Um Prometeu, um verdadeiro Prometeu! Que ar majestoso! Que andar imponente! Parece uma águia! Mas mal sai dali, com a papelada debaixo do braço, e entra no gabinete do director, a águia transforma-se em perdiz…».
Almas mortas.

1 comentário:

  1. "A humanidade de um homem declina na medida em que ele renuncia a pensar". Está tudo planeado: evite-se o livre pensamento e faremos dos homens aquilo que eles não são enquanto pensem.

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