domingo, 27 de março de 2016

FAZER OU ASSISTIR À HISTÓRIA?

ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Um personagem do texto dramático de José Cardoso Pires, O Render dos Heróis, diz, a certa altura, qualquer coisa como isto: "Vê? Lá está o senhor convencido de que faz História. A História faz-se em Lisboa, senhor oficial. Gente como nós assiste a ela e já não é mau!"
A temporalidade da acção decorre no século XIX e a escrita de Cardoso Pires está datada: Dezembro de 1960. Mas lida hoje e aqui, percebemos como a persistência temporal de uma realidade castradora da plenitude cívica é, na sociedade portuguesa, uma questão cultural que se prende à própria reinvenção do futuro. É hoje um lugar-comum que os homens são menos produto da História do que os seus próprios produtores. E o que contém de exaltante desafio à participação crítica, numa acção determinada como sujeitos activos da realidade social, motivadora de fecundas inquietações e perplexidades, é responsabilidade histórica de cada um e de nós todos, que não admite, sequer, a doce ilusão dos adiamentos póstumos, abençoados sempre pela desculpabilizante estratégia política do esquecimento.
No fundo, o que está em causa é tão só saber se, enquanto povo de uma região à margem -- e marginalizada --, recuperámos o direito à palavra e à fala, enquanto gestos de um processo de desenvolvimento verdadeiramente libertador. E se, em tal circunstância, o nosso falar (através das estruturas políticas institucionalizadas ou no quadro do que se convencionou chamar a expressão da sociedade civil) é audível, mais longe do que a nossa própria voz, isto é, se logramos ter eco junto dos decisores políticos das precárias angústias expressas colectivamente.
Basta citar os eufemismos de linguagem para esconder a realidade (já se chamou interioridade, já se crismou de desertificação, já se baptizou (e é o último artifício verbal: territórios de baixa densidade), mas se nos fatais "arcos de governação" alguma coisa mudou, foi para tudo ficar na mesma - ou pior!
A tudo isso acresce a irracionalidade feita com letra de lei das comunidades urbanas, uma forma absurda de cindir o território, criar divisões e bairrismos, dividir o mal pelas aldeias.
Quem assistiu a tudo isso, não pode olhar para a recente criação da Missão para o Interior, com alguma desconfiança, a desconfiança que o Prof. Pedro Guedes recentemente defendeu num texto do JF, face a um contexto longo de oportunidades falhadas nas questões do desenvolvimento. Eu, por mim, em milhares de páginas, andei a defender a necessidade e urgência de uma cultura de região, capaz de pensar a realidade acima dos interesses meramente conjunturais dos votos ou dos feudos de arcaicos barões da política.
Mas já percebi que, para isso, era fundamental que as instituições essenciais, como a Universidade e os Municípios, estivessem presentes -- e não ausentes da realidade. Seremos capazes de esbater a feira das vaidades?
É que, só assim, poderíamos fazer alguma coisa mais do que sermos meros assistentes da História, como dizia o personagem de José Cardoso Pires.

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