sexta-feira, 18 de março de 2016

LEMBRANÇA DE RAUL DE CARVALHO

Muitas vezes me interrogo sobre a força da poesia para criar instantes de emoção ou nos fazer sonhar outros continentes. Às vezes, basta um verso, que dizia Borges nos deve tocar como a brisa do mar, outras um breve ou longo poema para fazer bater mais depressa o coração, ou o reencontro com as palavras que (às vezes) são como um cristal, como Eugénio gostava de dizer.
Por generosa atenção de uma querida amiga, estou a folhear a primeira edição de Poesia, de Raul de Carvalho, e as mãos tremem-me de emoção, à medida que passo as folhas amarelecidas pelo tempo, mas onde a poesia ganha uma estranha luz, como que a querer dizer-nos que a vida dos poemas pode ser intemporal. A edição é de 1949 -- há quanto tempo! -- mas a poesia mantém a surpreendente frescura, sempre em busca da palavra exacta, mesmo quando o poema é longo, sem nunca cair numa retórica vazia, de que é exemplo maior "Serenidade és Minha", escrito à memória de Fernando Pessoa, que em cada verso corta a respiração do leitor: "Vem serenidade!/Vem cobrir a longa/fadiga dos homens,/este antigo desejo de nunca ser feliz/a não ser pela dupla humidade das bocas. ...Vem serenidade!"
Ao longo dos anos, e mesmo em situação limite, quando a noite é branca e de silêncio, foi este o poema a que regressei sempre, pela música das palavras e pelo sentido que dá à vida. Folheio, pois, Poesia, como se estivesse a manusear uma preciosidade, como se tivesse as mãos cheias de tesouros verbais, como aqueles que Ernesto Sábato encontrava, depois de cavar muito fundo. Navego pelas páginas:lá estão os poemas dedicados a Albano Martins e António Ramos Rosa, companheiros de sempre no jornadear da poesia.
Lembro-me bem de Albano Martins me ter contado a fase final de Raul de Carvalho. Já muito doente, esteve internado, no Porto, e, quando teve alta, acolheu-o uns dias em sua casa. Regressou a Lisboa e pouco depois morreu. Lembro-me de ver na casa de Vila Nova de Gaia, de Albano, vários quadros de Raul de Carvalho.
Agora, fecho o livro. Olho, mais uma vez, as páginas amarelecidas. E penso na vida desgraçada que Raul de Carvalho teve, na sua pobreza, o que ele terá sofrido para edificar uma das obras poéticas mais importantes do século XX português! A fazer lembrar, sempre, aquela inquietação de Jorge de Sena (que eu cito de cor) sobre um país que enche a boca com Camões, mas não se importa de matar à fome os poetas...

1 comentário:

  1. Verdade. Poucos vivem - ou podem viver ainda que se saiba que não vivam só dela - apenas da escrita (excluo jornalista e profissões que lhe estão ligadas), podem dar-se ao luxo de serem em tempo útil e inútil, escritores.
    Se verificar, no número exíguo dos que podem, há os que não são escritores, escrevem; são meteoros, fogo fátuo que não dura uma vida, mas enche bolsas.

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