sábado, 26 de março de 2016

O ANO DE CERVANTES

O ano do Quixote vai fazendo os seus passos para evocar os 400 anos da morte de Cervantes. Quando se leem as páginas do Engenhoso Fidalgo D. Quixote percebemos que o sonho não tem limites. A literatura, porque é obra do homem, é feita desse infinito tecido imaginário. A página em branco, essa, junto à qual Carlos de Oliveira mostrou como o lume das palavras é dolorosa combustão da alma do poeta, pode transformar-se em louvor da criação, afirmação de intacta humanidade, e ficar para sempre cativa da admiração universal. Página após página, palavra após palavra, o romance se edifica como casa ou destino intemporal que cada um, e todos – se todos tivessem acesso à cultura (desmesurada utopia) – hão-de frequentar e viver também como coisa sua, a tal matéria comum dos sonhos que alimenta a vida, para além daquilo que é efémero e rotineiro.
Falar do Quixote e celebrando-o, através do prazer da leitura, é sempre uma grande festa da Humanidade. É que o património é de todos e nesse universalismo está a raiz da intemporalidade da obra de Cervantes. Então, há mais de quatro séculos, Miguel de Cervantes construiu D. Quixote de La Mancha, romance dos romances, património universal e inesgotável rio que alimentou e alimenta a arte de contar. Ainda hoje, quando começamos a ler: “Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito, um fidalgo, dos de lança em cabido, adarga antiga, rocim fraco e galgo corredor”... e assim começa a história (na tradução do Visconde de Castilho) do famoso fidalgo D. Quixote de la Mancha... que “era rijo de compleição, seco de carnes, enxuto de rosto, madrugador, e amigo da caça”. E logo acrescenta: “É pois de saber que este fidalgo, nos intervalos que tinha de ócio (que eram os mais do ano), se dava a ler livros de cavalaria, com tanta afeição e gosto, que se esqueceu quase de todo o exercício da caça, e até da administração dos seus bens; e a tanto chegou a sua curiosidade e desatino neste ponto, que vendeu muitas courelas de semeadura para comprar livros de cavalarias que ler; com o que juntou em casa quantos pôde apanhar daquele género”. Encheu-se a fantasia de tudo o que achava nos livros... e aí estão as fabulosas aventuras e personagens.
A modernidade está dentro da própria história e da sua estrutura narrativa (antecipa a grande novela moderna) mas também na dimensão fantástica das figuras que lhe dão corpo (Sancho Pança: Lê-lo é sempre uma aventura outra, um prazer raro. E em Portugal (Cervantes fala do Tejo e da bela cidade de Lisboa) há formas diferentes de o fazer. Aquilino Ribeiro, que não acolhe o rigor formal de Castilho (”o culto excessivo do vernáculo”), fez ele próprio (que nunca escondeu uma paixão pelo Quixote) uma notável tradução que, diz o autor de “Terras do Demo”, “(...) traduzindo, sem empregar o calão das alfurjas, mas, sim, a fala viva e arterial do povo, sempre a mais expressiva e a mais pitoresca, julgo ter cumprido apenas o meu de- ver”. O resultado da empresa de Aquilino é hoje reconhecido como um enorme serviço prestado à cultura ibérica.
Só há uma maneira de celebrar Cervantes -- é lê-lo. E talvez a melhor forma de perceber a sua vitalidade é reflectirmos sobre o que Alberto Manguel, na sua porfiada História da Leitura, ensina a propósito do Quixote.  Diz ele que na criminosa ditadura Argentina e também na de Pinochet, o Quixote foi proibido. Diziam os torcionários que os romances de cavalaria eram perigosos porque faziam sonhar...

1 comentário:

  1. Como é de ver há uma estupidez da inteligência em quem proíbe romances de cavalaria por fazerem sonhar. Os homens sem sonho seriam maquinetas desvalidas. Com sonho, somos desvalidos homens. O que, não parecendo, é de facto outra coisa. Não há esperança sem sonho. Portanto, como aponta o cavaleiro da triste figura, é de sonhar.

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