sábado, 12 de março de 2016

O ESCULTOR QUE NÃO IA À "MACHAMBA"...

O Zé Rui Martins (ACERT), contou há dias uma história que não resisto a trazê-la aqui, pelo que ela é reveladora da importância da arte, e, ao mesmo tempo, pelo sentido de humanidade que lhe está subjacente.
Numa zona interior de Moçambique, era uma aldeia de camponeses, ele só encontrou lá um habitante que fazia escultura em madeira, aquele longo e laborioso trabalho de paciência que é a expressão criadora de saberes ancestrais. Todas as casas estavam vazias, menos aquela. Ao perguntar pelos outros, o escultor levantou os olhos do trabalho para lhe responder:
-- Estão todos na "machamba", a trabalhar.
Ele olhou o artista e as suas obras e foi descobrir os habitantes da aldeia, homens e mulheres, elas decerto com crianças às costas, nas tarefas da agricultura. Perguntou então a um deles por que só ficava na aldeia o escultor, e todos os outros trabalhavam no agro. A resposta é surpreendente:
-- É que ele trabalha para nos alegrar os olhos!
Ali estava, digo eu agora, F.P.N., a expressão maior da sabedoria e a densidade da sua compreensão sobre o lugar e o valor do artista no interior da sua comunidade. É uma boa lição para a arrogância dos que vivem nos chamados países desenvolvidos e olham a acção cultural como um desperdício ou uma coisa subalternizável. Nesse aspecto são os senhores do mundo que revelam um fatal analfabetismo, que dá bem a imagem de uma sociedade que pode ter muitas coisas, mas há muito perdeu a alma.
Bem precisamos de quem nos alegre os olhos!

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