segunda-feira, 14 de março de 2016

O TEMPO A RESPIRAR

É extraordinária a forma como nós sentimos as transformações do tempo, e, sentindo esses pulsares e mutações em que a natureza é pródiga, percebemos como a aventura da renovação da vida é uma coisa fantástica. Hoje, nas minhas navegações em terra, pude perscrutar tudo isso, ainda por cima num dia luminoso, sem asa de nuvem no céu, e com o sol poisado em cada detalhe da paisagem, olha! já uma papoila floresce entre as pedras e as árvores começam a romper em flores (lembro-me sempre do Proust e da sua procura do tempo perdido, quando esgota um capítulo inteiro  a escrever sobre as "raparigas em flor"!). "Raparigas em flor": que sublime expressão!
Este tempo doce que antecipa a Primavera está aí e foi por ele que andei à roda do Fundão, ouvindo a água e os pássaros, perscrutando o campo, agora  cada vez mais "verde da cor do limão", espaços rurais contíguos à apropriação urbana, que é sempre a caminhada temporal das terras na demanda do progresso. Beber com os olhos este pulsar da terra é uma benção de deuses amigos, que gostam decerto de partilhar a alegria.
Talvez, por isso, pela dimensão telúrica que toca a alma da gente, fui escutar as Quatro Estações, de Vivaldi, que é ritual que eu sigo quando o tempo marca ou dilui as fronteiras de terra comum, e o que o compositor quis transmitir certamente é que cada uma tem o seu genuíno encantamento, de que a música se apropria para nos fazer sonhar.
Em Novembro de 1991 (há quanto tempo, caramba!, já lá vão 25 anos!) escrevi um texto em que descrevia esse fascínio que se colhe na vivência das paisagens, e que, celebrando o Outono, tentava assinalar a transparência do tempo, para lá das folhas do calendário. Agora, releio-o em voz alta e pergunto-me se o texto não terá envelhecido, gasto pela roda dos dias e da vida, que é imparável. Era assim:
"Nos seus passeios de fim de tarde, à beira mar, no exílio, Manuel Teixeira Gomes reencontrava-se com a vida. Enchia os olhos de céu e mar azul, respirava a brisa marítima que porventura lhe lembrava o seu país distante, e murmurava: Mais um dia. Este momento já ninguém mo tira! Teixeira Gomes, escritor de grande sensibilidade, também aí, nesse seu dizer breve, nos ensinava a ver o mundo com outros olhos. A capacidade de amar as coisas belas da vida, no seu fluir temporal, deve ser a nossa descoberta de todos os dias, penso eu também. Descobrir então o deslumbramento daquele castanheiro da Índia que alguém plantou um dia a este chão, daquela folha que balança ao sabor do vento, daquela rua que o sol de fim de tarde torna diferente. Pensava tudo isto um dia destes, quando olhava a explosão de luz nos verdes e amarelos da Gardunha, que fazem lembrar o cromatismo de Van Gogh. Alain, que ensinava a buscar o tempo da felicidade, tinha razão quando dizia que a verdadeira riqueza dos espectáculos está no detalhe: ver é percorrer detalhes, parar um pouco em cada um, e, de novo, agarrar o conjunto num olhar. Pequenos momentos, mas às vezes instantes essenciais, que ajudam a superar o cinzentismo do espaço e das horas em que nos movemos. É esse respirar do tempo, esse horizonte de beleza a habitar, que Vinicius nos propõe quando inventa "uma música que seja como o ponto de reunião de muitas vozes em busca de uma harmonia nova". E que, diz o meu Poeta, "comece sem começo e termine sem fim".
O tempo a respirar.


4 comentários:

  1. O que um sopro de primavera consegue a adoçar graus centígrados. Grande é o espírito.

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  2. Um texto tão bonito lido logo de manhã reconforta-nos para o resto do dia. Muito obrigado Sr. Fernando Paulouro.

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  3. Os pessegueiros são os primeiros a florir. Como conseguiu colocar tão bem em palavras o que estou a sentir. Bom dia para si.

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  4. Os pessegueiros são os primeiros a florir. Como conseguiu colocar tão bem em palavras o que estou a sentir. Bom dia para si.

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