terça-feira, 22 de março de 2016

RÁPIDAS, AS SOMBRAS!

Hoje, não sei porquê, pareceu-me ver uma silhueta de mulher de preto, que levava ao colo um miúdo, e tentava escapar da chuva insistente, rápida como uma sombra. Lembrei-me de uma velha mulher que passou a vida a tentar escapar de outras inclemências, numa resistência sem margens aos golpes de uma existência madrasta, aqui está um belo eufemismo para esconder a crueza da realidade. Na cidade de palavras pisadas, não sei se ainda se lembrarão dela ou da sua sombra. Por mero acaso de quem mexe em papéis velhos, fui encontrar uma prosa minha de 2002 (já lá vão 14 anos!) que intitulei Imprecação para o Dia Internacional da Mulher, e que falava de uma outra centenária mulher de preto, que já terá morrido pela certa, mas que a rápida sombra que hoje se cruzou comigo me obrigou a parar um pouco para pensar nela e declinar o seu nome: chamava-se apenas Gregória e o retrato que então fiz dela compunha-se assim:

"Antigamente, quando a cidade era uma vila de casas com quintais, limitada por campos agrícolas, e a estação de caminho de ferro, ao fundo, a pobreza – ou a exclusão social, como agora se diz – tinha na proximidade uma garantia de visibilidade que inquietava o quotidiano. Lembro-me de uma mulher de negro, sempre de negro, embrulhando no colo uma criança, que passeava pelas ruas a sua desgraça, acolhendo-se às casas onde sabia que podia receber uma réstia de azeite ou de pão para mitigar a fome. Durante anos e anos, vi-a passar, sempre cozida às paredes, e sempre com uma criança ao colo, nas suas aproximações à vila. Era uma mulher de negro, negro dos pés à cabeça, onde só o rosto moreno de cigana sobressaía, com aqueles traços fundos que lavram na face toda a biografia da miséria. Era a “Gregória”. Quantos anos carregaria ela? Ninguém sabia. Mas todos a haviam reconhecido sempre como velha, nas suas deambulações pela sobrevivência que era a sua aventura de pobre. A vila tornou-se cidade, dilatou o urbanismo de mau gosto pelos campos agrícolas e dos quintais de então, já poucos restam. Numa margem da improvisada circular, chamada Eugénio de Andrade (logo ele, que tão belos poemas fez sobre as mulheres de negro ou sobre as Mães), existe há muitos anos, uma barraca de madeira. Feita de tábuas desconjuntadas, onde o roupa estendida na corda parece uma bandeira de infra-humanidade apontada à pressa de quem passa na estrada. É a casa da “Gregória”, longe, afastada de tudo e de todos, onde vive e tem comido o tal “pão que o diabo amassou”. Subitamente, a cidade começou a mexer-se para aquele lado e a rodear de casas a solidão do seu universo. E a Gregória pressentiu que a sua “ilha” de pobreza estava em perigo. Olhava as máquinas, ameaçadoras, à espera do irremediável e interrogava-se como a cidade caminhara em direcção àquele lugar, sempre tão distante de tudo, sempre tão afastado de todos, sempre à margem da vida. E logo lhe vieram dizer que tinha de sair dali, daquele lugar onde há décadas não havia ninguém e ela julgara ser a sua casa, o tempo dos seus dias. A velha cigana, com o seu único filho, porventura o que sobreviveu, que arrasta deficiência bem notória, ainda se aventura pelas ruas da cidade na sua faina de sempre: ser pobre de pedir. Não faltam os que vêem a sua silhueta negra e se abismam com a sua longevidade. “Aquilo é que é resistência!” Um dia destes, por sinal fazia frio e o vento de neve vindo da Estrela fustigava a chuva, a Gregória veio mesmo ao Jornal, não para pedir, mas com o seu pranto e os seus choros, arrastando a queixa de que a Câmara lhe vai demolir a barraca. “Também somos filhos de Deus... Não podemos ficar ao frio e à chuva!” Um pranto contra a desumanidade. A Gregória, metida nas suas vestes negras, continua a chorar, a pedir uma casa, a solicitar ajuda como se a vida estivesse por um fio. Alguém diz:
-- Vejam lá, tem 110 anos!
E eu murmurei baixinho: de vida?"

1 comentário:

  1. E numa boa e escorreita história. Os pobres são gente sem idade, que nunca foi nova.

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