segunda-feira, 7 de março de 2016

UM ABRAÇO DE GRATIDÃO AO ACERT

A VIAGEM DO ELEFANTE
UM ASPECTO DAS CONVERSAS NO ACERT

Para o Zé Rui Martins, que nunca desiste

Há coisas verdadeiramente fantásticas, nascidas com o tempo novo da democracia, que se construíram colectivamente fora da glória dos grandes centros e afirmaram a capacidade criadora do interior português, esse vastíssimo espaço de assimetrias e desigualdades que os poderes, que gostam de rebatizar as situações, anatemizaram com o eufemismo de territórios de baixa densidade. Talvez um dos casos mais fortes dessa força para romper atavismos ancestrais e edificar altos voos de sonhos de criação e utopias, seja o caso do ACERT - Trigo Limpo que, há 40 anos, nasceu em Tondela para materializar uma identidade funda com a comunidade, e, ao mesmo tempo, projectar a sua acção cultural à escala do país.
O inventário desses sonhos programados como um destino colectivo é hoje uma história riquíssima que enche de orgulho, certamente, os seus construtores, os seus fazedores, e também todos aqueles para quem a cultura é uma luz indispensável à vida. Sábado, subi a Tondela para dar um abraço de gratidão ao Acert e a essa vanguarda revolucionária (no sentido em que transforma as coisas...), que eu corporizo sempre no Zé Rui, e para lhes dizer que também eu sou tributário grato dessa longa viagem que, é certo, não foi tão longa como a do Elefante. Mas talvez a forma como o Acert inventou, do ponto de vista épico e dramático, A Viagem do Elefante, de José Saramago, que andou por Portugal e Espanha e certamente não chegou à Áustria por falta de apoio, mereça aqui um sublinhado para culminar a multifacetada obra cultural do ACERT e exemplificar a dinâmica social que gira à sua volta, mobilizando milhares de pessoas, como acontece também com as produções da Queima do Judas ou da Morte do Galo.
Mas no sábado fui ao coração do ACERT -- um equipamento verdadeiramente notável -- para participar no programa das comemorações dos seus 40 anos e moderar aquilo que eu chamei uma conversa vadia em que participavam, também, o Manuel Carvalho da Silva, a jovem presidente da Amnistia Internacional, Susana Gaspar, e Daniel Oliveira. Habituado a estas andanças, devo dizer que esta sessão, prolongada por quase três horas, foi um momento fascinante, pela qualidade das intervenções, pela empatia com o público, decerto, também, pela actualidade projectiva do tema central que visava a questão da participação na sociedade portuguesa.
Mergulhou-se na realidade, falou-se dos constrangimentos  da cidadania, das novas interacções geradas pelas mutações tecnológicas, da real realidade (a desvalorização do trabalho e a mercadorização de tudo e mais alguma coisa, os espaços de ruptura entre gerações, etc.), mas num diálogo sem laivos de auto-flagelação, que é uma espécie de arrogância dos portugueses, como explicou Daniel Oliveira.
Voltámos todos a reflectir sobre o que se passa à nossa volta: a rua está a deixar de ser um espaço público, a decadência da democracia e da política, o exercício da pedagogia para a derrota -- que tem sido prática recorrente da esquerda, a profundíssima crise da comunicação social.
A determinada altura, Carvalho da Silva sobre o comodismo e a apatia cívica: pensar dá muito trabalho. E acrescento eu: e é perigoso!
A Susana Gaspar sobre a participação, afirma não querer ser cúmplice da anemia cívica e do desinteresse, e coloca a intervenção política (na rua ou fora dela) como essencial à democracia, virtualizando também o papel da arte como respirar essencial da sociedade. E Carvalho da Silva, num aviso à navegação: não há pensamento único - o que há é pensamento dominante!
Foi este o fio de uma meada que se prolongou por cerca de três horas. Venham mais conversas. A Jornada, diziam os circunstantes, foi um bom início para pensar os quarenta anos. Vamos em frente. E apontem na agenda: 26 de Março, queima do Judas; e lá para Julho o Tom de Festa, que este ano promete muito. Até lá.

1 comentário:

  1. Interessante. É verdade, há quem se interesse - e muito -pela desistência do pensamento livre, da reflexão. Diria mesmo que é um dos propósitos dominantes. Pensar leva à questão e a questão é sempre perigosa, duvida. Ou seja, não se satisfaz, procura, quer os porquês das coisas...enfim, tudo razões a evitar. O conformismo tem seus procedimentos para impedir outro proceder.

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