terça-feira, 12 de abril de 2016

A NEVE BRANCA DAS CEREJEIRAS

Só quem não sabe a terra que pisa se pode admirar deste Abril de águas mil, do friozinho nocturno, das intermitências de chuva, e, também, das abertas de sol que logo põem um frémito de esperança na aspereza do tempo. A neve branca das cerejeiras, como eu costumo chamar, às flores brancas que povoam agora a Gardunha e os campos da Cova da Beira. A semana passada andei por esse território de fantasia, assim podemos dizer, e mais uma vez aquele sentimento de deslumbramento me encheu os olhos. É decerto uma coisa estupenda poder caminhar pelos pomares, rodeado de milhares de flores brancas, descobrir pequenos detalhes na paisagem, tentar arquivar na memória, tanto quanto for possível, esse sortilégio, como coisa pessoal e intransmissível.
A mancha branca, que domina a Gardunha, apesar da chuva insistente, resiste. Todos os dias para lá olho e fico feliz por elas resistirem. Penso, aliás, que o cartaz atravessa também as quatro estações. Vemos as flores e estamos já a sonhar com as cerejas vermelhas e depois porventura com o Outono na Serra que é outra imagem mágica.
Poucas árvores têm tanta presença na cultura. Desde O Cerejal, de Tchekov, àquela mítica canção da Comuna com que Yves Montand nos fazia bater mais depressa o coração, "Le Temps des Cerises", até à poesia em que a cereja se transforma abundantemente em metáfora de amor. É essa dimensão que se encontra nas 270 páginas da belíssima antologia organizada por Gonçalo Salvado e Maria João Fernandes, que tem um prefácio de Eduardo Lourenço e um posfácio de António Ramos Rosa, e se chama CEREJAS - Poemas de Amor de autores portugueses contemporâneos.
Dos poemas (há um curioso de E. M. de Melo e Castro que diz: "na minha poesia/não há cerejas/prefiro comê-las"), deixo uns versos de Pedro Tamen. É um longo poema, dedicado a Sophia, e o seu início é arte poética no seu melhor:

"Haver no fundo um templo ou uma casa
é ter consigo, amante, uma cereja aberta
onde é madeira ao centro e solução
do suco rosa e negro  onde se abrasa
e torna leve e limpo, e mal desperta
se torna coração"
...



2 comentários:

  1. Da mostra de tudo ficaram-me as cerejeiras floridas. Não morro de amores por Yves Montand que não ouvi cantar em meu tempo de cantores franceses e está na canção muito nostálgico. Quanto a Pedro Támen, de quem gosto qb, também não o vejo neste poema como noutros que conheço. Quanto ao livro em causa, tenha prefácio e posfácio de quem tenha, há que ler para saber se vale a pena. Mas pronto, fiquei sabendo que Eugénia Mello e Castro gosta de cerejas, coisa proveitosa ao meu diz que diz.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bea:
      O Poema não é da Geninha! É do pai dela de nome Ernesto!


      JoãoL.B.Fortunato

      Eliminar