domingo, 10 de abril de 2016

AOS QUE AMAM A MONTANHA

A CAPELA DE S. LOURENÇO
FAIAS E CHÃO DE BOSQUE
MANTEIGAS E O VALE DO ZÊZERE
Olho sempre a Serra da Estrela como um imenso território de liberdade e de descoberta porque ela encerra dentro de si tesouros insondáveis que, à semelhança do que Ernesto Sábato dizia para a poesia: cavar fundo à procura das pepitas das palavras que são ouro, também a montanha é fértil em dádivas de beleza, tão surpreendentes, que a riqueza ao nosso alcance tem tamanha diversidade que se torna impossível guardá-la, por inteiro, no bornal da memória. Arquivamos então no olhar fragmentos fantásticos, somos tocados pela emoção de instantes únicos, suspendemos a respiração quando o horizonte à nossa volta parece ser um interminável diálogo entre a terra e o céu e a paisagem assume uma grandeza que nos deixa atónitos. No relativismo da nossa escala com a Natureza mater, podemos descobrir o carácter bravio ou insubmisso da montanha, mas também a harmonia que ficou da forma como o homem a humanizou, como saga épica, sobretudo os vales e o agro, lá ao fundo, mas também como edificou uma casa e outra e outra como altos castelos ao luar.
Lá do alto, entre silêncios ou sonoridades de água a correr, que às vezes se tornaram fontes que matam todas as sedes aos caminheiros, vê-se esse mundo elemental, e, enquanto o vemos como sortilégio de deuses pródigos em bênçãos naturais, parece que dilatamos a vida e respiramos apenas alegria. Muitas vezes caminhei pela Serra da Estrela, e nessas andanças lembro sempre o senhor Milhano, da Covilhã, que nos levava a desvendar segredos, os tais mistérios da Serra, que são sempre a grande aventura dos viajeiros, e ontem, somei a essas antigas imagens, outras de igual ou superior beleza. Palmilhávamos a Rota das Faias, a caminho da capela de S. Lourenço, lá no alto, que parece ter sido edificada como ponto de convergência de toda a beleza, guiados pelo José Rodrigues, que conhece a Serra (e a Beira) a palmo, e que emprestou à empresa da dezena de caminheiros que nós éramos a pedagogia de olharmos aquelas realidades com "empenho do coração". Porque à Serra, todos o sabem, mas muitos esquecem, é preciso amá-la!
Eu já tinha escrito sobre este espaço sobranceiro a Manteigas, desinquietado pelas belíssimas fotografias da brasileira Gláucia Malena, mas agora era o contacto físico com bosques fabulosos de faias, a romperem do seu sono invernal para a Primavera, atapetados de folhas que eu gosto de chamar chão de bosque, com as flores das urzes a criarem manchas cromáticas surpreendentes, e, depois, a confrontar-nos com a dimensão do silêncio que faz destes lugares paraísos terreais ou pequenos santuários que nos obrigam a habitar os continentes do sonho. A Maria Eugénia Ferrão, organizadora mor da caminhada, certamente com leitura dimensionada à sua sensibilidade musical, tinha avisado que esta Rota das Faias era sinfonia para as quatro estações. E, de facto, o compasso temporal da transformação da vida tem aqui, numa espécie de reserva intocável, a expressão identificadora das mutações temporais, com as suas oferendas de intacta beleza, coisas de parar e ver, que tornam mais verdadeiro aquele ensinamento de José Saramago quando ele diz que cada viagem é sempre um regresso.
À volta da Capela de São Lourenço há castanheiros que ainda resistem como esculturas com os seus ramos erguidos ao céu, breve memória desses monumentos naturais que aqui e ali revestiam a Serra. E lá está inscrita a força poética de Miguel Torga, ele que tanto amava a Serra da Estrela e sobre ela deixou páginas eternas. O poema que lá está, impõe pausa aos caminheiros, e diz assim:

"Eis o pai da montanha, o bíblico Moisés Vegetal!
Falou com Deus também.
E debaixo dos seus pés, inominada, tem
A lei da vida em pedra natural!
Forte como um destino,
Calmo como um pastor.
E sempre pontual e matutino
A receber o frio e o calor!
Barbas, rugas e veias
De gigante.
Mas, sobretudo, braços!
Longos e negros desmedidos traços.
Gestos solenes duma fé constante...
Folhas verdes à volta do desejo
Que amadurece.
E nos olha a prece
Da eternidade
Eis o pai da montanha, o fálico pagão
Que se veste de neve e guarda a mocidade
No coração"

Então, colhida a poesia de Torga, todos logo ali jurámos regressos e mais outras navegações pela montanha ao reencontro da alegria de viver. Assim é, mas só para os que amam a montanha!

3 comentários:

  1. De tudo se tem de gostar e não apenas da montanha. Ou passearemos na superfície das coisas. Da vida.

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  2. A Maria Eugénia Ferrão tem razão quando diz que a Rota das Faias é sinfonia para as quatro estações. Mas a sua sensibilidade musical também lhe dirá que tal como o inverno da sinfonia esta é a menos interessante. Nesta altura nem os carvalhos se distinguem dos castanheiros. À volta da Capela são carvalhos centenários e não castanheiros a que a UTAD atribuiu cerca de 400 anos. Ficarei encantado em os acompanhar numa próxima estação.

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    1. Meu caro
      Apesar da sua reserva à paisagem ainda descarnada do Inverno, mesmo assim a Rota das Faias é sempre uma fabulosa viagem a um bosque que faz sonhar. Anoto já a sua disponibilidade para nos acompanhar numa próxima estação. Vamos a isso.

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