terça-feira, 5 de abril de 2016

CRIME É CRIME

Francisco Louçã, respondendo a João Miguel Tavares, no "Público", acaba por sublinhar aspectos muito importantes do que é uma certa crónica judiciária, de que os jornais e muitos jornalistas se tornaram arautos, funcionando um pouco como tribunal de conveniência para os assuntos da corrupção. No artigo de Louçã, clarifica-se esta problemática, que tem posto por aí as ideias em estado de sítio, quando, na parte final, afirma: "Portanto, se Tavares deixasse de lado os ódios pessoais que tão mal o colocam, seria um tudo nada mais sensato e discutiria política, banca e outras malfeitorias sem ter que gritar contra toda a gente de que não gosta que “é corrupto”. Ora, não há “corrupção de esquerda e corrupção de direita”, porque crime é crime. Até lhe digo mais, caro Tavares, para o aliviar da sua angústia: eu só ponho as mãos no fogo por pessoas que conheço muito bem. O que conheço do PT, ao contrário, é o Mensalão, que condeno, ou a compra de favores, que detesto, e espero que todos os responsáveis respondam perante a justiça. Mas é perante a justiça, entende, Tavares? Não é perante juiz que faz parte do partido oposto, ou perante sentença transitada em julgado nos editoriais do Globo, porque isso seria o mesmo que entregar a presidência do nosso Supremo Tribunal de Justiça a um Octávio Ribeiro. E para isso não conta comigo".
Mas antes, talvez valha a pena oferecer aos Leitores, a maneira como Louçã desmistifica as inquietações de Tavares. Leiam: "A João Miguel Tavares falta ser original, mas resolveu juntar-se a um coro de indignados que me invectiva (e a outros) por não bramar pela destituição de Dilma Roussef. Cheio de fofuras, ele quer ter um poster da Mariana à porta do quarto, ele leu os meus livros, ele adora tudo, mas agora indignou-se porque acha que eu acho que “afinal, existe uma corrupção de direita e uma corrupção de esquerda”. O argumento é tão tristonho que não precisaria de resposta, não fora ser sinal reincidente de uma direita que mostra que entende a democracia de modo instrumental".
E explica Francisco Louçã: "Há aqui três discussões. A primeira é a do populismo: a presidente não é acusada de qualquer crime, não importa, bota fora. Um juiz viola a lei, mas ele tem uma missão superior. Um presidente no Brasil só pode ser demitido se se provar que cometeu pessoalmente um crime previsto no artigo 85º da Constituição e na Lei 1.079/1950, mas não cuide disso, bota fora. O argumento é este: se há fumo é porque há fogo, bota fora. É o desvario do populismo: basta um juiz falar para a condenação estar feita, mesmo sem acusação nem julgamento. Esqueceu-se do Direito, caro Tavares? A segunda é a da política. Os juízes angelicais que descem com a espada de fogo para aniquilarem o mal seriam belos, se fossem legais. Ora, não havendo processo jurídico que fundamente a demissão, tudo é política. E suja: a queixa do PSDB, o partido de direita que iniciou o processo (e que perdeu as eleições) baseia-se no parecer do conselheiro do Tribunal de Contas, João Nardes, um ex-deputado do Partido Progressista, que aliás chegou a ser aliado do PT e agora faz parte da frente derrubista, em que acusa a presidente de má gestão orçamental em 2014, ou seja, no mandato anterior. Ora, Nardes é bem conhecido da justiça, dado que foi registado pela “Operação Zelotes”, que investiga a venda de perdões fiscais, tendo sido descoberta uma sua empresa que terá recebido dois milhões de reais para reduzir o pagamento de impostos do Grupo RBS. Para acrescentar um pouco do colorido, o ex-presidente do PP, Pedro Correa, testemunha que Nardes recebia regularmente luvas e indica os valores. É mesmo nisto que se quer meter, caro Tavares? Eduardo Cunha, o presidente do parlamento, que conduz o impeachment, recebeu mais de 52 milhões de reais da Petrobrás e as suas contas na Suíça já foram identificadas. A maioria dos deputados que julgam a presidente (352 dos 594 deputados) tem um acusação por suspeitas de corrupção ou outros crimes – Dilma não tem. A demissão, que ocorrerá dentro de três semanas, é por isso a corrida do deputado aflito para se safar. É isto que quer, caro Tavares? A terceira é a da luta contra a corrupção.
Não sei se Tavares conseguirá convencer alguém de que gritar pelo bota-fora é a atitude digna. Ele procura aliás seduzir-me, queixando-se de que tínhamos “uma plataforma mínima de entendimento e que poderíamos encontrar-nos na rua e concordar sobre Ricardo Salgado, José Sócrates ou Lula da Silva” – todos ladrões. O problema é que não concordamos, caro Tavares. Salgado, que eu saiba, não foi acusado de roubar, veremos o que diz o processo. Sócrates não tem acusação e vai para ano e meio; aquelas coisas no Correio da Manhã não se qualificam para o efeito. E Lula não foi acusado".

2 comentários:

  1. Concordo. O povo apressa-se a julgar. Seja de direita ou de esquerda.Sem que haja ainda culpa formada. E todo o acusado, até prova em contrário, é presumido inocente. Julgo eu.
    Não aprecio o cronista em causa. Julgo-o vaidoso e mentalmente imberbe. Bom, também não lhe fica bem aquela arrogância e sobranceria, mas pode que a vida lha cobre.

    De Louçã digo o oposto. É sábio, ponderado. A sua opinião merece respeito e nota-se que considera o ouvinte. A proa disso é que vai buscar os argumentos de JMTavares e os rebate calmamente, como quem bebe um copo de água.
    Digamos que mostra a distância de um a outro.
    E pelo caminho explica o que muito português e brasileiro ainda não entendeu. Sobretudo aos brasileiros fazia-lhes falta ler esta crónica.

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  2. Sobre o escrito do Dr. Louçã pouco ou nada se pode comentar dado a limpidez esclarecedora como o tema é abordado. Sobre o outro : interrogo-me com um capitalista usurário e explorador consegue pagar tensa a ...tal canalha (perdoem o elogio!)

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