sexta-feira, 22 de abril de 2016

LEMBRAM-SE DE CATARINA CHITAS?


Lembrei-me hoje (como me lembro muitas vezes) de Catarina Chitas, a mulher dos mil ofícios (pastora, bodeira, camponesa, sei lá...), que foi nome e ainda é legenda da cultura tradicional portuguesa, essa mesma que vem do fundo dos tempos e na sua força milenar tem um fio de resistência e de identidade colectiva. Lembrei-me, pois, dela, Catarina Chitas, e da força do seu cantar, e da força do seu adufe, por que tive nas mãos (quantas vezes?) aquele álbum de Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça, forrado a sarapelheira, como se fosse a cor da terra, e que é uma fabulosa antologia da música tradicional portuguesa na Beira Alta e Beira Baixa. Lembro-me bem dessa geografia que Giacometti palmilhou, e eu com ele, no registo de vozes, música, cantares, que era, também, uma exemplar acção em louvor da memória e da cultura. Era, também, uma luta contra o tempo, de que o etnólogo tinha clara consciência: "Força nos é notar novamente o estado de desagregação em que se encontra  a nossa cultura de tradição oral, o total desaparecimento das suas formas originais sendo de prever num futuro que se nos afigura muito próximo".
Então, lá está o registo da cantiga da ceifa, por Catarina Chitas, de Penha Garcia, quando tinha 56 anos. Anotação, à margem: tecedeira, analfabeta. Manuel Louzã-Henriques, escreveria muito mais tarde: "A mais cátara das Catarinas, a da voz (já que a nós e a vós dos avós a voz pertence) rola mansa feita pastorinha de cabras e de cantigas com raízes em pedras e em espigas, em ágoas e mágoas, em ventos e seus lamentos, por isso (talvez por isso) maga iniciante nos ritos velhos da purificação -- catarse de um povo -- sinal de fogo e pátria aflita".
Não sei quantas vezes a ouvi, mas lembro-me de, por uma tarde de Verão,  ouvindo os cantares de Catarina Chitas, no cenário meio fantástico dos penhascos de Penha Garcia, ter percebido melhor o sentido das pedras da história nas terras de sol e céu azul da Idanha. Mãos cavadas pelos sulcos de velhas fadigas camponesas ("corta minha foice, corta...") manejavam o adufe fazedoras de uma antiquíssima música. Os sons e as palavras -- sons e palavras mágicas -- tinham atravessado o tempo e era como se essa voz milenar fizesse parte da terra e fosse a explosão da luz, a água e as árvores, as pedras e os caminhos que os homens e as mulheres desbravaram e os dias andados fizeram comuns.
Era tudo isso o instante de ouvir Catarina Chitas: um território de afectos, de sorrisos ou de lágrimas, de tristezas e de alegrias. Essa música, expressão daquela sabedoria que viajou pelo tempo, parecia ter poisado nas pedras ou nos campos do sol a pino da campina, onde ainda ecoa a memória das searas alimentadas com o suor de sol a sol: "Trabalhai quebrai o corpo..."
Ouvi, outra vez, a sua voz, como se estivesse a revisitar Catarina Chitas e quisesse pôr um pequeno acento de memória contra o esquecimento. Catarina Chitas!

1 comentário:

  1. Não conheci a senhora, mas o se texto está extraordinário de bom. Fiquei a saber-lhe o melhor.

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