quinta-feira, 7 de abril de 2016

LEMBRANÇA DE VASCO SILVA

É na fundura da memória que encontramos as reservas essenciais que dão sentido à vida, pois é no registo das coisas boas e más que graduam os acontecimentos, e guardamos no mais íntimo de nós, que encontramos porventura o retrato da aventura cósmica com que nos vamos confrontando, ao longo dos dias. Memória e memórias, fragmentos de vida que assaltam o nosso pensamento e se configuram em múltiplas geografias sentimentais, imagens de afectos cuja nitidez o pó do tempo não dilui. Outra vez em Castelo Branco nas minhas navegações por ruas e praças, pelos detalhes que são, às vezes, a alma mater das paisagens que dá cor aos dias.
Então, caminhava com aquela ideia tão certeira de Machado que ensina que "el camino se hace andando" e dei comigo no Largo da Sé, com uma luz magnífica de sol primaveril, que poisava nas coisas para as fazer brilhar, ou, até, criando as sombras de contraste, como se quisesse sublinhar a particularidade dos instantes ou produzir linhas de fronteiras imaginárias. O Largo: lá está a estátua de Vaz Preto, senhor todo poderoso e par do reino, hierático e rígido na sua postura monumental. Mas a atenção logo se desviou para o edifício do Conservatório, ali bem perto da imponência da Sé, de onde, por uma janela saíam bonitas sonoridades de música de algum aluno aplicado. E daqui o olhar fixou-se numa imensa saudade na casa onde morou o Dr. Vasco Silva, que foi meu Mestre de tudo: de vida, de política, de cultura, de cidadania. Era o primeiro andar e as janelas, resguardadas por grossos portais de madeira, estavam sempre meio entreabertas, como as vejo agora. O Vasco amava a luz natural, aquela luz doce que ilumina os fins de tarde e é sempre um breve sopro de esperança.
Não sei quantas vezes, ai quantas! -- mas foram seguramente centenas -- eu subi aquelas escadas do n.º 6 da Rua das Olarias. À austeridade do Vasco, abria-se logo o sorriso de D. Lurdes Geirinhas, sempre uma mulher lindíssima, que inventava connosco, comigo e com a Madalena, a alegria com carácter de urgência, que era esse o reduto onde se situava toda a convivialidade. Sempre me senti naquele espaço, como se estivesse em casa, com aquelas vivências de afectos e proximidades que tornam singulares as relações de verdadeira amizade. Ainda por cima, D. Lurdes era uma cozinheira de mão cheia, lembro-me sempre do arroz de pato que era melhor do que o do "Gambrinus"!, e depois o dr. Vasco coleccionava vinhos excepcionais, que gostava de partilhar com os outros para aveludar o fio da conversa ou tornar mais vivo o prosear.
Passei muitas horas naquela sala enorme, a tal das janelas e dos portais, que era um espaço fantástico, todo forrado de livros, onde sobressaía uma enorme reprodução da "Guernica", de Picasso. A biblioteca era notável, encontrávamos lá preciosidades, que democraticamente frequentávamos para a leitura vagarosa. Quando eu fazia anos, o dr. Vasco oferecia-me sempre um desses livros mais raros e ainda no outro dia folheei o "Dicionário Crítico" do António José Saraiva, que foi obra proibidíssima, ou uma edição muito rara do poeta Afonso Duarte, que guardo como coisas do coração.
A partir de uma certa altura, o dr. Vasco Silva aprofundou muitíssimo o seu interesse pela música clássica, enviavam-lhe da América e de países europeus (tinha amigos por todo o lado...), as melhores edições da Deutsche Gramaphone e as novidades mundiais acabadinhas de sair. Comodamente instalados, com auscultadores, fechávamos os olhos e navegámos por esses continentes absolutamente surpreendentes.
Também à mesa do café, no Arcádia ou na Belard, se juntava uma roda de amigos, gente jovem, que partilhava a mesa como uma honra, na esperança de ouvir os seus comentários sobre a realidade. Mas aí, o Vasco não era de muitas conversas: munido dos seus livros, que gostava de sublinhar, assumia a leitura como um momento de silêncio. Às vezes, numa pausa, abria-se à conversa e até exprimia inteligente ironia sobre acontecimentos, o que nos fazia sorrir. Tinha uma longa cultura clássica, dominava a ficção e a poesia, mas do que ele gostava mesmo era do ensaio. Lembro-me de ele me mostrar páginas.
-- Veja a densidade de conhecimento que está contido numa página! -- dizia-me ele, para acrescentar que era este esforço exigido ao leitor que fazia da leitura uma grande aventura.
Passo à beira do n.º 6 da Rua das Olarias, mas desta vez não toco ao batente. Por momentos, penso com saudade no Vasco e na Lurdes e um arrepio me percorre, inteiro. Como foi possível que o fascismo, o tal manso fascismo (manso para os outros, claro), tenha infernizado a vida a pessoas tão boas, eles eram, de facto, os melhores de nós, se é possível falar assim. O Vasco preso, o Vasco expulso do ensino, a D. Lurdes também, e ambos a viverem penosamente de explicações, sempre sobre os holofotes da vigilância da PIDE. Estou a vê-lo, uma vez mais, sempre de casaco preto depois da morte súbita do Luís, o filho, considerado por todos o jovem mais promissor da sua geração.
Olho outra vez para a casa, para as janelas e para as portadas, imagino ainda a sala cheia de livros e de música dos grandes compositores, faço um aceno de saudade e penso, agora que estamos em Abril, no mundo que nós perdemos quando eles nos deixaram.

1 comentário:

  1. É. O mundo ficou diferente. Tem - ou parece ter - menos gente boa. Aumenta o número de gente instruída e diminui o da gente bem formada. Abunda nele uma diversidade que antes desconhecíamos, ficou bem mais colorido de vontades, apetites, padrões diversos que se apresentam em desafio. E isso é saudável, mas tem seus riscos.

    A democracia também já não é o que era. Porque a geração que comanda a pensa diferente. Nem sei se a pensa. E julgo que a maior parte de nós, os mais velhos, a grande parte, é responsável pelo enorme da diferença. Tínhamos que ser nós a ensinar a quem não esteve presente. Como se ensina o abecedário, a rezar, a estar à mesa, a tanta coisa, que tudo temos de aprender. E é lamentável, mas não ensinámos. Ou ensinámos mal.
    Bem sei, os tempos são outros. Eles são outros e têm um sem número de solicitações. Mas sei por exemplo que o espírito do 25 de Abril é das coisas mais bonitas de se ensinar e melhores e mais interessantes de aprender. Ninguém nasce democrata. Todas as plantas são isso mesmo: primeiro precisam ser plantadas; depois são regadas, adubadas e cuidadas, não vão as ervas daninhas sufocá-las.
    A nossa democracia está num sufoco, infestada de erva daninha; não há quem monde, adube, plante. Onde andam os agricultores da democracia?

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