domingo, 10 de abril de 2016

O MINISTRO POETA

A nomeação do embaixador Luís Filipe Castro Mendes para ministro da Cultura, depois da demissão de João Soares, é uma excelente notícia. Luís Filipe Castro Mendes é um diplomata de reconhecido mérito (que chefiou postos em Budapeste, Nova Deli e Estrasburgo), mas é, também, um homem de cultura, com uma obra importante na moderna poesia portuguesa. Só faz bem a Portugal que o ministro da Cultura da República seja um poeta inspirado e um cidadão a quem o rumor do mundo não é indiferente, com conhecimento profundo dos labirintos da actualidade internacional.
Eu, que gosto de mergulhar na sua arte poética, fico feliz por saber que no Palácio da Ajuda vai ficar uma personalidade com a riqueza cultural e o prestígio de Luís Filipe Castro Mendes. Acresce que o novo ministro nasceu em Idanha-a-Nova (o pai era juiz) e a essa relação com as terras da Idanha tem-se fortificado, muito pela acção da querida Fernanda Gabriel, que tendo em Monsanto uma "pátria" e uma âncora às terras da Beira, projecta essa realidade numa afectividade a que ninguém consegue ser indiferente. Foi nessa convergência de amizade que Luís Filipe Castro Mendes já ofereceu parte da sua Biblioteca à Idanha, um gesto que deve ser destacado.
O "Público", assinalava sobre Castro Mendes que "a sua formação universitária é Direito, mas os ambientes em que se integrou, ainda enquanto estudante, foram os literários" e que "começou a publicar ainda muito cedo, adolescente, no suplemento juvenil do "Diário de Lisboa",  A sua estreia em livro foi em 1983, com Recados, publicado na Imprensa Nacional, numa colecção de jovens poetas, criada por Vasco Graça Moura. No ano seguinte publicou a obra de ficção Areias Escuras, à qual sucedeu Seis Elegias e Outros Poemas, que mereceu o Prémio da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Publicou ainda Ilha dos Mortos (1991), mas a sua plena afirmação enquanto poeta, diz o "Público", deu-se dez anos depois, com um livro chamado Viagem de Inverno (1993). Seguiram-se O Jogo de Fazer Versos (1994), Modos de Música (1996), Outras Canções em Poesia Reunida (1985-1999) e Os Dias Inventados. Nessa altura, já tinha feito o habitual périplo dos inícios da carreira diplomática (ainda não como embaixador) em Angola, Madrid e Paris. Para trás, tinham ficado as experiências de assessor de Melo Antunes, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, e do Presidente Ramalho Eanes. Em meados dos anos 90 foi colocado como cônsul-geral de Portugal no Rio de Janeiro. A sua primeira missão como embaixador foi em Budapeste e depois em Nova Deli. Nessa experiência indiana radica um dos seus livros de poesia, Lendas da Índia foi distinguido distinguido com o prémio António Quadros.
E que melhor maneira de saudar Luís Filipe Castro Mendes do que acenar-lhe com um poema seu, do livro Viagem de Inverno, intitulado "Fim do Dia".

Aquieta-se o silêncio na folhagem, 
que em árvores teceu amor antigo;
sobressalto transposto da viagem
que o dia rumoroso fez consigo.

O coração, que é sombra na paisagem,
dá às palavras vãs outro sentido;
e é murmúrio desfeito na aragem,
que do entardecer recolhe abrigo.

Ares assim se fazem de uma luz
que torna como baço o sol poente;
e o coração à estrema se reduz,
como o dia se volve mais ausente.

Recolhem-se as palavras no vagar
que dia nem fulgor nos podem dar.


1 comentário:

  1. Já que não conseguimos um presidente poeta, que venha agora o ministro. E que seja pródigo o seu labor.

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