terça-feira, 19 de abril de 2016

QUOTIDIANOS

PINTURA DE PAULO OSSIÃO
Cafés, restaurantes ou cervejarias são sempre excelentes laboratórios de observação e de garimpo de histórias. São universos em que as pessoas se tornam mais extrovertidas, praticando alegria, pois cabeça, estômago e coração, já dizia Camilo, são três pilares fundamentais do equilíbrio humano. São lugares em que muitas vezes as preocupações ficam à porta e o convívio destrava línguas porque ali todos são bons de conversar.
Um dia destes, na noite de Lisboa, num desses espaços mais pacatos e com expressão popular, também eu tive direito a observar navegações, como se estivesse à caça daquelas histórias ou fragmentos delas que, às vezes, alimentam a literatura. Estava tudo bem disposto: corações ao alto!
Olhei à volta e vi que a mesa contígua à minha tinha sido ocupada por duas senhoras que poderiam decerto ser incluídas naquela categoria que a sociologia costuma designar como média-alta. Numa caracterização mais literária, procurando definir tipos, talvez se pudesse dizer que se tratava de gente abonada, mas simpática, que gostava de viver bem, amante de coisas boas, sabores e vinhos de estalo, com dias assim qualquer mortal tem pena de morrer.
Fixo o olhar. Duas senhoras: uma de chapéu e traje desportivo; a outra com jóias exuberantes, mais manequim, mas discreta. A primeira era mais prá frentex.
-- Ficar em casa, querida, era o que faltava! A vida são dois dias...
A outra foi mais lacónica:
-- Uma das coisas boas que se leva desta vida é a boa comidinha...
O empregado lembrou que a hora ia adiantada e que a cozinha... Elas mediram as possibilidades de mastigação, entre o que queriam e o que podiam, e apontaram ao menu:
-- Ameijoas ao natural!
O funcionário abanou a cabeça, que sim, era um boa escolha. Navegaram pela carta de vinhos, estacionaram nos brancos, e ativeram-se às disponibilidades da casa.
-- Isto ia bem era com champanhe! -- disse a do chapéu, e encolheu os ombros, como se dissesse que assim também estava bem.
O empregado é que apanhou a deixa e exclamou um pouco provocatório:
-- Champanhe, óh, la, la... E logo Moet & Chandon!
Riram todos.
Vieram as ameixoas e foram despachadas, com a garrafa de branco, a compasso, e exclamações aprovadoras da frescura dos bivalves.
Voltou o empregado.
-- Então, o que vai ser a seguir?
Escolheram eirozes e salada de alface, e voltaram aos vinhos, agora para a opção de um tinto do Douro.
Comiam as enguias à mão e davam estalos sobre a excelência dos eirozes.
A conversa corria mais fluida. Girou para o universo de amigos.
A médica, a determinada altura contou:
-- Sabes o que aconteceu ao Luís?
-- O que foi? Tem algum cancro?
-- Nada disso, a mulher fugiu com um rapaz novo...
-- E depois?
-- Depois, teve um ataque de miocárdio e morreu!
Abandonei o laboratório com uma história no bolso.

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