domingo, 3 de abril de 2016

UMA CEREJEIRA EM FLOR É QUANTO BASTA

Num dia de intermitências, com sol e chuva, às vezes o ventinho frio que sopra da Estrela, dei comigo a observar que o cinzentismo da tarde seria sempre superado pela afirmação da Primavera visível nos pequenos rebentos das tílias na Avenida da Liberdade ou nas cerejeiras em flor que começam a despontar. E já se sabe, virá o sol e depois o mar branco de flores desdobra-se em tapetes pela encosta da Gardunha e pelos campos da Cova da Beira. Então, olho para a árvore, já vestida de branco, e, como acontece sempre, sobreponho à imagem os belos versos de Eugénio deAndrade escritos em 1948, em As Mãos e os Frutos, e fico reconfortado com o dia:

"Acordar, ser na manhã de Abril
a brancura desta cerejeira;
arder das folhas à raiz,
dar versos ou florir desta maneira.

Abrir os braços, acolher nos ramos
o vento, a luz, ou o que quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma cereja."


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