quarta-feira, 6 de abril de 2016

UMA RAPARIGA À JANELA

PINTURA DE PAULO OSSIÃO
Andei um dia destes, banhado de sol e céu azul, a passear por Castelo Branco, pelo seu universo urbano carregado de modernidade, mas quando passei pelo prédio meio arruinado onde funcionou a Assembleia, uma colectividade cultural onde, antes de Abril, colocámos tantos sonhos da juventude, quase que uma lágrima furtiva saiu do meu olhar. Era aquele um lugar de cultura que, na sua acção de liberdade vigiada, tentava sacudir a letargia cívica do meio. Fizeram-se coisas exaltantes, colóquios meio clandestinos, tertúlias onde se ouvia música (uma vez até lá foi o José Duarte dos cinco minutos de Jazz, pela mão do Luís Pio, que era melómano  e gostava de partilhar connosco a sua música), ou se produziam tertúlias onde se falava de tudo em liberdade livre.
Passei por lá, olhei o prédio de janelas e portas emparedadas, pressenti como a patine do tempo o roeu por dentro e uma súbita tristeza me assaltou, como se estivesse ali uma certa ruína dos sonhos dos vinte anos, quando sonhar era o grande programa dos dias.
Detive-me mais tempo na Praça da Devesa e olhei para uma certa sobriedade urbana, casas onde às vezes ressalta a força do granito ou a beleza das mansardas, o que faz da praça uma belíssima singularidade na sua dimensão citadina. Os olhos viajaram depois para outras memórias, de outro prédio, perto do da Assembleia, o da Farmácia Grave. Como num filme, poiso nos prazeres da memória, e sorriu. Havia uma janela, que emoldurava todo o tempo da província de então, um tempo vagaroso em que o tédio era sacudido por sobressaltos do coração. Havia essa janela, que debruava a imagem de uma rapariga lindíssima, cuja alegria de viver (pensávamos nós) era uma equação ao fluir da vida que escorria pela praça, pessoas, jovens, tudo aquilo que uma praça digna desse nome deve conter como expressão da diversidade humana. A rapariga da janela foi-se tornando um ícone. 
Por essa altura (anos 70: há quanto tempo, caramba!) eu estava na tropa, no BC6, sofrendo a chateza da rotineira vida militar. Uma vez por semana, a companhia passava à porta da doce e reservada menina que estava à janela, às vezes com o seu cabelo ao vento. Passávamos cadenciados, ao som dos tambores e das cornetas, a caminho da carreira de tiro, lá para os lados do Montalvão, onde os recrutas iam aprender a disparar. Os olhos, que são vadios, logo passaram a fixar o quadro vivo da janela, como espécie de luz na aridez da marcha militar. Penso que a Companhia inteira entrava em contido sobressalto.
Penso que fui eu e o Vasques que definimos uma estratégia que fosse alegre divertimento para o instante inolvidável da passagem à beira da rapariga à janela. Combinámos nós os milicianos que, sempre que passássemos por ali, à ida ou no regresso, se impunha algum espectáculo breve de parada. E aí estávamos todos (o Cortezão, o Mingote, o Neves, o Valente e quantos mais, com os nossos irmãos furriéis à mistura) a concretizar o plano de um cumprimento especial e solene à rapariga da janela. E era fácil: cada um de nós, quando cada pelotão passava mesmo por de baixo da janela emoldurada pelo rosto da menina, mandávamos os soldados olhar para o outro lado, enquanto se batia o tacão e fazíamos continência em direcção à janela, como se fosse uma tribuna onde estivesse porventura o mais importante dos generais. Só quando cada um se distanciava, os recrutas passavam a olhar em frente, e, sucessivamente, o episódio repetia-se até ao último dos grupos. Com as botas a bater na calçada, era a homenagem possível a um rosto de rapariga que iluminava os tristes dias da militança.
Olho para a janela, mas só lá está a moldura. O retrato foi dissolvido pelo tempo. Voltei a fixar-me lá e pensei que, uns anos depois, todos podíamos ter lá ido cantar aquela canção das terras alentejanas que fala numa menina à janela:

"Menina estás à janela
com o teu cabelo à lua
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua

Sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela
com o teu cabelo à lua
menina estás à janela

Os olhos requerem olhos
e os corações corações
e os meus requerem os teus
em todas as ocasiões

Menina estás à janela
com o teu cabelo à lua
não me vou daqui embora
sem levar uma prenda tua

Sem levar uma prenda tua
sem levar uma prenda dela
com o teu cabelo à lua
menina estás à janela"

Todos, afinal, levámos prendas dela: a sua vigilante presença era um aceno de alegria que cada um colhia à sua maneira. E, agora que passei mesmo por de baixo da janela, pareceu-me vê-la lá como imagem fugaz e passageira. E tive a sensação que captava outra vez a imagem do seu sorriso sóbrio e lindíssimo, quando aquela janela parecia o centro do mundo.

1 comentário:

  1. A aguarela é muito bonita, com esse ar de vidro e transparência. E a homenagem à garota também está conforme, tudo de cara à banda pois então.
    Oh, o meu Alentejo escorre todo pela voz do Vitorino fora quando canta a menina estás à janela.

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