quarta-feira, 4 de maio de 2016

ÁRVORES!

Enquanto espero que os jacarandás de Lisboa floresçam (Eugénio de Andrade: "São eles que anunciam o Verão,/Não sei doutra glória, doutro/paraíso: à sua entrada os jacarandás/estão em flor, um de cada lado..."), fico a encher os olhos com o castanheiro da Índia, à minha beira. Olho para ele e não posso deixar de recordar os castanheiros da Índia de Paris (dez mil!), o esplendor deles nas margens do Sena ou em qualquer praça, pois eles fazem parte da respiração da grande cidade.
É muito curiosa a forma como através de uma árvore podemos fazer grandes viagens, pois também elas, como nós, se tornaram nómadas, galgaram oceanos e longas distâncias, e, na sua transmutação territorial, ofereceram sinais de outras realidades e de outros mundos. Estas, de que falámos, têm para mim essa carga simbólica de se ancorarem a múltiplos continentes, o que é uma riqueza que elas acrescentaram aos nossos territórios de sonhos.
Na biografia territorial, que é a nossa casa comum, encontramos árvores monumentais. Quem já olhou o bosque que João Manuel Franco plantou na encosta da Gardunha, a descair sobre o Alcaide, que tem exemplares exóticos surpreendentes? Há, um pouco por todo o lado, árvores imponentes, seculares, altas e de grande copa, como os plátanos ao cimo da Avenida da Liberdade, ou a carvalha que parece a porta que se abre para a Praça do Município, árvores com uma história, com tantos tempos incorporados dentro dos seus troncos dilatados ou nos altos ramos da sua altivez, que mereciam bem ser classificadas como parte essencial do nosso património comum. Isto das árvores tem que se lhe diga: quando seguimos os seus trilhos e nos acolhemos a toda a sua glória, como acontece a quem pisar a rota das Faias, por cima de Manteigas, e parar um pouco para ver a paisagem junto à capela de S. Lourenço (os olhos vadiam então à roda da Serra, sempre à roda, como se estivéssemos num tecto do mundo à nossa escala!), apreendemos porventura a mesma sensação que Torga interiorizou quando por ali esteve e olhou os monumentais carvalhos (eu, vendo-os descarnados e imponentes, julguei serem castanheiros e do erro me penitencio!) e os levou consigo para o seu fazer poético. Árvores! Regresso sempre à sinfonia que Aquilino escreveu, na abertura mágica de A Casa Grande de Romarigães, sobre o nascimento da floresta, que tem dimensão universal e é escrita patrimonial da humanidade. E, no entanto, pergunto:quem o lê?
Então, enquanto os jacarandás de Lisboa vão amadurecendo as flores para Junho, encho os olhos com o meu castanheiro da Índia e com a explosão das suas flores brancas, e digo para mim que a vida pode ser, nas pequenas coisas -- se calhar nos tais pormenores de Deus de que falava Steiner -- uma coisa verdadeiramente fantástica que vale a pena festejar com alegria.

1 comentário:

  1. Sabe, a gratidão à vida é sempre das e nas pequenas coisas. Não há outras que a despertem. Mesmo as grandes coisas só existem e valem se têm por base essa beleza miúda. Donde me vem a certeza de ser no observador, no seu espírito de atenção, que fazem eco. Sem alguém para a impressão,a beleza devém inócua.

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