quinta-feira, 26 de maio de 2016

BONS SENTIMENTOS

Há dias, os jornais publicaram uma notícia que dizia: a indústria farmacêutica americana vai deixar de poder fornecer as injeções letais com que são mortos, em muitos Estados, os condenados à morte, nos EUA. A informação passou rápida como um vento e não deu azo a grandes comentários de pessoas sensíveis, porventura aquelas que, dizia um poema de Sophia, não gostam de matar galinhas, mas gostam de comer galinhas...
Aparentemente, uma forma mais suave morrer, o método revelou-se também uma técnica de açougue nem sempre eficaz e não faltam exemplos de condenados a quem a dose letal não conseguiu limpar da vida à primeira. Mas não deve haver muitas angústias no universo daqueles para quem a vida é apenas um canto do carrasco. Há, mesmo, nesse antro em que Justiça e crime andam de mãos dadas, uma larga especialização da morte servida em doses de crueldade graduada por câmaras de gaz, fuzilamento, forca e outras formas expeditas como a guilhotina ou o pescoço no cepo, que foram caindo em desuso pelo alto dramatismo que o espectáculo podia causar nas tais pessoas sensíveis.
Estes casos das condenações à morte em Estados dos EUA têm desencadeado muitas e massivas manifestações de protesto e produzido denúncias em literatura e cinema sobre os corredores da morte, mas na maior parte dos casos os justicialistas não se comovem com lágrimas. E a pena de morte vai vingando...
Num país que tem sempre na ponta da língua os direitos humanos -- para os outros, claro! -- causa não poucas perplexidades esta persistência de desumanidade e de desvalorização da vida do sistema americano.
Terão acabado as injeções letais -- acabaram mesmo? Mas não faltarão, para substituí-las, recursos tecnológicos para ampliar a eficácia do matadouro. O resto é silêncio. Silêncio de morte.

1 comentário:

  1. Mas até que o silênco de morte se instale há todo um sadismo nos rituais de morte. Não entendo os EUA, em quase tudo que condenam são os praticantes mais abusivos.
    Mas, e sem desprimor para Sophia, não há mal em não matar galinhas e comer-lhe a carne. Penso que o sentido figurado funciona, mas o real não. Galinhas não são pessoas.

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