sexta-feira, 6 de maio de 2016

BORIS VIAN

Ilustração do "El Pais"
Para a minha geração, Boris Vian tornou-se rapidamente numa figura mítica, porque tinha tudo aquilo que nos fazia sonhar, uma rebeldia e uma postura desafiante, uma capacidade rara para a genialidade, a vertigem de uma biografia que se cumpria em mil um ofícios: engenheiro, músico de jazz, tradutor, cantautor, actor, escritor. O "El Pais", que recentemente falava nele por via de uma biografia em banda desenhada, com guião de Hervé Bourhis e desenhos de Christian Cailleaux, dizia que Boris Vian foi "um polígrafo incontinente, cujas obras completas ocupam 15 tomos e incluem novelas, relatos, poemas, ensaios, críticas e crónicas para a rádio".
Como podia Boris Vian não ser personagem mítico, tocando o imaginário não só da minha, mas de sucessivas gerações, ele que até morreu com 39 anos e cuja morte foi tão sentida que os seus admiradores se recusavam a aplicar-lhe o lugar-comum que foi sempre uma treta muito bem construída, uma espécie de desculpa com o destino: "morrem cedo, os que os deuses amam!". No caso de Boris Vian isso nunca poderia funcionar, pois ele até foi condenado por ultraje à moral, por ter escrito Cuspirei sobre as vossas tumbas, e ser autor da célebre canção Le Deserteur, um violento requisitório contra a guerra, quando a França mandava matar na Argélia e na Indochina. "Sem jazz a vida seria um erro", escreveu ele, como se estivesse a ditar a sua própria legenda para a história. Quando fixamos a atenção na figura de Boris Vian encontramos uma das mais fascinantes personalidades da cultura europeia do século XX. Poucos teceram tão bem a matéria dos sonhos e assumiram a plenitude de um compromisso visando um mundo mais justo e feliz. Tão feliz quanto a utopia da música o faria possível, em tudo aquilo em que ela é potenciadora de sonho e de felicidade.
Lembrando-me de Boris Vian, lembrei-me de uma crónica do meu querido amigo Jorge Listopad, incluída num livro publicado nos anos 80, Secos e Molhados, que continua a ler-se com agrado. Listopad, que conheceu Vian em Paris, faz uma curiosa evocação do músico e escritor. A páginas tantas: "Boris Vian era um dos primeiros habitantes dessa aldeia. "Nunca chego aos 40 anos", dizia, fazendo cara-de-pau, olhos-de-vidro, sorriso-de-lâmina, máscara totalmente oposta à sua expressão habitual, viva, generosa, quente. Troçava da sua morte prematura, tal um dr. Caligari-de-guinhol, mas essa troça era apenas uma tentativa de exprimir, ao seu modo pudico, o medo escondido. Aliás, quanto mais os anos passavam mais Boris Vian acreditava que não há fronteira entre o grotesco e o trágico, entre o verdadeiro e o falso, entre a vida e a morte, tudo igual a tudo. O que talvez possa explicar -- não apenas porque teve tantos talentos naturais --  a sua tão diferenciada criação e os vários riscos artísticos que gostava de correr".
Regista Listopad: "Morreu aos 39 anos. O enterro foi acompanhado de jazz, da malta de camisas aos quadrados, raparigas de cabelos apanhados em rabo-de-cavalo, nesse dia deixados soltos em sinal de luto,  dos "maitre a penser" da Gallimard engravatados; um enterro como uma grande brincadeira, como um ensaio geral para filmar amanhã, como a confirmação da aposta pessoal do falso clínico que soube escrever coisas ternas como ninguém".
Boris Vian.

1 comentário:

  1. De Boris Vian só li A Espuma dos Dias que escolhi pelo título e por ter gostado do nome do escritor, cujo me desanimou qb e desincentivou mais pesquisa que, pelo visto, teria valido a pena. Mas eu, ou andei ao contrário da geração, ou de costas para os seus interesses. Estou a pensar reencarnar em jovem estudante universitária, já não devo apanhar é o Boris Vian. Paciência.

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