domingo, 8 de maio de 2016

DIAS DA MÚSICA EM CASTELO BRANCO

Foi o Eugénio de Andrade que nos seus versos disse sobre a Música que ela é capaz de "acariciar a mais longínqua das estrelas". Só quem é capaz de sonhar através da Música pode alcançar essa transcendência de que fala o poeta, essa grandeza de conhecimento, essa dimensão onírica do pensamento, pois nos versos do autor de As Mãos e os Frutos, a Música "como se nada dissesse vai/afinal dizendo tudo". Pensava nisto à medida que este fim-de-semana (sexta e sábado) interiorizava como a "divina arte" está a povoar Castelo Branco de momentos excepcionais, numa cidade com uma rede de equipamentos tão dignos como os de qualquer cidade europeia.
Castelo Branco também tem Dias da Música! E tudo acontece numa programação de rigor e qualidade, que possibilita essas vivências culturais como coisas naturais à escala do quotidiano. É verdade que a cidade tem no Conservatório e na Escola Superior de Artes raízes fundas para o alargamento desse interesse colectivo pela música, visível nos auditórios esgotados e nas apoteoses que se vivem como grandes festas da cultura. O êxito também reside na programação cuidada -- e apontada à diversidade que as artes impõem -- que tem sido o labor discreto, mas de grande eficácia na criação de públicos, de Carlos Semedo.
Ontem, na noite de tempestade que assolava a região, o auditório do Cine-Teatro Avenida, esgotadíssimo, deslumbrava-se com o concerto da Orquestra Gulbenkian que teve momentos verdadeiramente inolvidáveis no Concerto para Piano e Orquestra de Mário Laginha, uma peça sinfónica excepcional, onde o compositor combinou de uma forma muito bela uma doce nostalgia com a expressão de uma modernidade que nele é imagem de marca, sobretudo com as influências do jazz, que é sua grande paixão. Logo aí, o público aplaudiu Laginha e os músicos com vibrante entusiasmo.
Antes, a Orquestra Gulbenkian, dirigida pelo maestro Pedro Neves, tinha já tocado a Abertura Sinfónica n.º 3, de Joly Braga Santos, uma espécie de mote para a noite triunfal que se viveu e de que a execução da Sinfonia N.º 5, de Ludwig van Beethoven, se tornou acontecimento quase épico, pois a música do génio tem sempre a dimensão de estar para além do tempo e ser sempre glorificação maior da criação.
Então, na noite tempestuosa, lá fora, o Cine-Teatro Avenida era um reduto de sol (sol metafórico para aquecer corações) e de luz, de verdadeira Primavera, que se vivia intensamente à volta da "nossa companheira música".
Já no dia anterior, no auditório do Centro de Cultura Contemporânea, o Recital de Piano de Lilian Akopova que, durante cerca de duas horas, tocou Schumann, Rachmaninov, Arno Babadjanian, Mendolssohn, Debussy e Ginastera, foi outro instante único. A jovem pianista, de 32 anos, fascinou o público, num diálogo profundo com o piano, na respiração do seu corpo com a música. No final o público rompeu  em demorados aplausos, sinal da grande apoteose vivida por todos.
Assim vão os Dias da Música em Castelo Branco. E durante o mês de Maio, veja o Leitor o que a Cidade lhe oferece na tal programação musical de luxo, de que falávamos no início: Olga Prats e Alexandro Erlich Oliva (11 de Maio), Arte D' arco di corda e di Tasto (19 de Maio), Andrey Baranov e Inga Dzektser (25 de Maio). E a festa promete continuar em Junho. A não perder, claro.


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