quarta-feira, 25 de maio de 2016

DIAS DE LUZ À VOLTA DA PAISAGEM

Os meus queridos Leitores hão-de perdoar-me este silêncio de quase dez dias, mas não foram férias de escrita, que às vezes é preciso fazer, ou de outro tipo, que também é bom interromper o inventário dos dias, mas antes trabalhos de raro prazer à volta do Festival Literário da Gardunha, que decorreu a semana passada, no Fundão, e foi acontecimento cultural relevante, à escala da região e do país. Digo isto, e penso que o faço com o distanciamento possível de quem esteve na organização da iniciativa, desde a primeira edição.
Quem tiver memória sabe da expressão nacional que o Fundão teve no plano cultural, antes do 25 de Abril, quando a cultura era uma perigosa área de resistência, e, ao mesmo tempo, uma respiração arterial indispensável à própria afirmação criadora de um país "vestido de grades". Tudo aconteceu nesse tempo, numa relação de proximidade com os maiores nomes da literatura portuguesa, mas também com grandes escritores brasileiros, de Erico Veríssimo a João Cabral de Melo Neto ou Drummond, tudo acontecendo pela ousadia visionária de António Paulouro e do seu "Jornal do Fundão", que tinha na cultura a pedra angular onde tudo começava. Eu vivi esses acontecimentos, estive por dentro deles, dei-lhes continuidade, e, por isso, não se estranhou que desde o início do Festival Literário da Gardunha o tivesse compreendido como uma ponte temporal com esses tempos gloriosos, em que o Fundão era, muitas vezes, o centro de tudo.
No fundo, havendo essa raiz, seria estulto não a revitalizar, depois de anos e anos de inércia e desinteresse (as pistolas de trazer por casa contra a cultura!), na materialização de inscrever o Fundão e as suas fortes tradições culturais na cartografia actual dos acontecimentos literários, potenciando um diálogo ibérico que possa viajar mesmo por cima de outras fronteiras.
Esta terceira edição do Festival Literário da Gardunha, que reuniu cerca de trinta escritores, desde ficcionistas e poetas a ensaístas, que teve tertúlias e lançamentos de livros, e a música de Mário Laginha e o canto de Camané, assumiu na qualidade e elevação do diálogo dos vários painéis, sempre de conversa livre entre os intervenientes, um traço identificador e distintivo do próprio Festival, num ambiente fraterno e de seriedade, que já o singularizou de iniciativas congéneres. No seu Blogue Da Literatura, Eduardo Pita dá, de certo modo, essa dimensão, no texto Notebook da Gardunha.
Borges dizia: sempre que há muitos escritores reunidos, não se deve citar nenhum, em particular. Acredito que sim, mas neste caso tenho que violar a recomendação do Mestre, para dizer apenas que a presença de César António Molina, que proferiu brilhante conferência de abertura e eu tive a honra de apresentar foi um momento muito alto (um dia destes falarei do seu último livro Todo se arregla caminando, que é uma obra fascinante). E, já agora, um aceno especial a Gonçalo M. Tavares e a Dulce Maria Cardoso, que contactaram com alunos e enriqueceram, também, o debate sobre "Escrever a Paisagem". A qualidade e a transversalidade temática das intervenções, que foram gravadas, bem mereciam publicação.
Dias cheios de luz.

2 comentários:

  1. Caríssimo e Estimado Fernando, como eu tenho andado "moída" por estar longe e não poder ter assistido a esse evento singular e rico de saberes e letras!... Fui acompanhando virtualmente, mas com o pensamento real no Fundão! Parabéns a todos que fizeram acontecer o FLG. Abraço.

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