quinta-feira, 12 de maio de 2016

HUMANIDADES

Às vezes, é bom parar para pensar um pouco e olhar para a realidade com olhos de ver, isto é, sacudir a persistência daquele pensamento que mercantiliza tudo -- até o coração. O propósito de afastar a cultura do quotidiano, como coisa supletiva, o esvaziamento da Escola (nas suas várias vertentes) da dimensão humanista, como se nessa matriz não residisse a sua grande razão de ser, apenas fez avançar inelutavelmente o deserto, deserto de irracionalidade e de absurdo.
Eu parei então um pouco para ler uma excelente crónica de Félix de Azua, no "El Pais", em que se abordava este tema, com grande desassombro. "A liquidação das humanidades na educação espanhola não é só um erro atribuível ao mercantilismo obsessivo, é, também, um modo de desarmar a população mais desamparada", diz o cronista. Onde ele fala de educação espanhola, poderíamos nós dizer, com inteira propriedade, educação portuguesa. Félix de Azúa caracteriza a situação da seguinte forma: "Como escreve Jordi Ibañez, no seu extraordinário estudo O reverso da história, a política educativa espanhola "não é que seja nem torpe nem má, mas directamente estúpida. E isso é assim porque só tem duas faces: os cinzentos  tecnocratas adornados de um cinismo compassivo, ou os cínicos ilusionistas que acomodam o seu discurso à fabricação oportunista de uma nova maioria. Em ambos os casos, destrói-se a possibilidade de que a cultura humanista ensine "a pensar criticamente com um pensamento não orientado a fins meramente profissionais e técnicos". O autor de O reverso da história acredita, com Lévi-Strauss, que a universidade "se entregou à inevitável coligação entre o infantilismo de massas estudantis e o corporativismo dos docentes", e o resultado é "o adoçamento e a degradação educativa".
Estranhamente, ou nem tanto, ninguém discute abertamente estas questões. Também por cá, o conformismo é de oiro!

1 comentário:

  1. E entretanto no altar da estupidez sacrifica-se a escola, professores e alunos. Ou seja, sacrifica-se o futuro, que, sem o humanismo, o que fica da educação para além da sua incompleta vertente utilitária?! E depois não querem ter consumos excessivos nos ansiolíticos e gastos em psiquiatras e psicólogos e noutros fármacos relacionados ao evolutivo mau estar da civilização. Estamos distorcer a realidade pessoal. E isto tem efeitos danosos a todos os níveis. E mais danosos para as classes sem privilégios, impedidas sequer de sentirem a necessidade. Estamos a fazer crescer o monstro; um dia, ele devora-nos.

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