segunda-feira, 2 de maio de 2016

LUÍS SEPÚLVEDA PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO

Nem tudo é sombrio, também há estrelas no céu que às vezes se transformam em suave melodia, ventos favoráveis a bons portos, sei lá, circunstâncias que convergem em notícias boas, que nos deixam felizes. Foi o que aconteceu comigo há dias. Era uma sexta-feira e havia aquele sol de fim de tarde que poisa na paisagem, em despedida de luz, e nos deixa sempre com o fascínio de um dia esplendoroso que chega ao fim. Ora, num horizonte assim, tinha de acontecer também a notícia de que o escritor chileno Luís Sepúlveda tinha vencido o Prémio Eduardo Lourenço, do CEI.
A razão da minha felicidade radicava no facto de ter sido eu a propor a sua candidatura ao Prémio. Eu tinha mostrado o texto a uma amiga, que é leitora exigente, e ela dissera-me, com uma certeza que me deixou atónito: "O Sepúlveda vai ganhar!"
Eu já tivera o gosto de uma vitória semelhante com Mia Couto, mas desta vez defrontava-me com uma certa dose de cepticismo. Mas enfim... A minha amiga, lembrava-me: "Então, você não refere a dimensão universal do escritor e a raiz ibero-americana da sua obra e a sua pluralidade ibérica? É aí que reside a força ou a singularidade de Luís Sepúlveda..."
Parece que a minha amiga tinha razão e, por isso, aqui deixo a parte substancial do texto que levou o júri a atribuir o Prémio a Luís Sepúlveda. Era assim:

"Creio que não há sonho mais belo do que o de um mundo onde o pilar fundamental da existência seja a fraternidade, onde as relações humanas sejam sustentadas pela solidariedade, um mundo onde todos compartilhemos da necessidade de justiça social e actuemos com coerência.
(Luis Sepúlveda O poder dos sonhos, Lisboa: Edições Asa: 1011.) 

No universo da literatura ibero-americana, a obra de Luís Sepúlveda ocupa um lugar muito especial, pela natureza da sua fidelidade às raízes latino-americanas, aos territórios oníricos da criação, à dimensão fantástica da sua escrita, à reelaboração da memória dos lugares e das pessoas na sua relação arterial com a História do Chile e as suas comunidades originárias. Na incessante acção criadora, que é a sua forma de fazer literatura, não faltam à escrita do autor de O Velho que Lia Romances de Amor a expressão identificadora de realidades primordiais e uma dimensão plástica da linguagem que lhe conferem uma certidão de autenticidade e de estilo, só alcançável pelos grandes escritores.
A natureza dessa originalidade criadora, que é um traço distintivo dos seus livros, fez que as suas palavras voassem por cima das fronteiras para se tornarem matéria de sonhos de alcance universal. Em certo sentido, poderia dizer-se que ele materializou aquele desejo tão bem formulado pelo grande escritor brasileiro, João Guimarães Rosa quando disse: voa, palavra! E as suas palavras fizeram-se parte inteira do sonho de milhares e milhares de leitores em todo o mundo. Ele dirá numa entrevista: “Voar, ter asas, não é só levantarmo-nos no ar, é caminharmos com passos próprios. Elevarmo-nos confiando apenas nas nossas próprias forças”.
A universalidade da obra de Luís Sepúlveda radica na sua capacidade para, contando histórias que mergulham às vezes em realidades que são retratos particulares da condição humana, adquirirem pela sua comum humanidade, sentido planetário inerente à esperança de que a literatura tem, desde a sua matriz originária, desde a Antiguidade Grega aos nossos dias, o compromisso de contribuir para a edificação de um mundo mais habitável. No caso de Luís Sepúlveda, essa contingência cruza-se com a sua biografia, também vincadamente expressa na sua obra criadora (Octávio Paz), estando na primeira linha de defesa das liberdades, por exemplo, no golpe militar fascista de 11 de Setembro, de Pinochet. Luís Sepúlveda estava no Palácio de La Moneda a fazer guarda ao Presidente Allende, como membro da Unidade Popular chilena.
Esse e outros combates cívicos levaram-no aos caminhos do exílio. Têm sido múltiplas as suas navegações: viajou e trabalhou no Brasil, Uruguai, Paraguai e Peru. Viveu no Equador entre os índios Shuar, numa missão de estudo da UNESCO. Foi amigo de Chico Mendes, herói da defesa da Amazónia, a quem, aliás dedicou O Velho que Lia Romances de Amor.  Realizador de cinema, guionista, escritor,  construiu o seu universo ficcional longe do Chile, o que lhe permitiu regressar sempre distanciadamente aos territórios da infância e às vicissitudes de se fazer a si próprio como homem e cidadão. Essa vertente foi importante para estimular a memória e porventura consolidar a sua escrita com a dimensão do fantástico latino-americano.
Se nos ativermos às suas principais obras, em que se destaca a humaníssima narrativa de O Homem que Lia Romances de Amor, descobrimos facilmente que a cartografia do imaginário chileno é uma âncora fundamental da ficção de Luís Sepúlveda. É importante sublinhar, também, que na vastidão da sua bibliografia se deve dar atenção à forma como Sepúlveda domina os géneros literários, como é o caso da sua dimensão de cronista ou autor de livros de viagens: Patagónia Express, Crónicas do Sul; ou de ficcionista que faz da memória questão que tem consigo mesmo: O General e o Juiz, As Rosas de Atacama;  ou até na literatura infantil: História de um gato e de um rato que se tornaram amigos e História do Caracol que descobriu a importância da lentidão.
Autor ibero-americano, Luís Sepúlveda vive em Gijon, a Ibéria é hoje o seu lar. Poucos autores, como ele, têm trabalhado em louvor da Língua e da Cultura espanholas, fazendo da pátria idiomática que tem a dimensão plurinacional de vários continentes, uma aventura criadora em que o homem é a medida de todas as coisas.

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