domingo, 8 de maio de 2016

O POETA QUE PÕE TUDO EM QUESTÃO

Hoje, no Paul, na Casa de Cultura José Marmelo e Silva, a homenagem ao poeta e ensaísta E. M. de Melo Castro, foi um momento de altíssima qualidade. As intervenções dos Professores Rui Torres e Arnaldo Saraiva fizeram luz sobre a dimensão da obra poética e ensaística de Melo e Castro, não esquecendo, acrescento eu, a sua intervenção como agitador de ideias e de inovação na então triste comarca das letras portuguesas. Nelson Marmelo e Silva apresentou o homenageado percorrendo a sua obra.
Foi lembrado, e bem, a acção cultural de E.M. de Melo e Castro no Brasil, onde se radicou há anos. Ali espalha saber e conhecimento pelas universidades e no Brasil já publicou cerca de duas dezenas de livros, numa fecunda actividade criadora. O Prof. Rui Torres diria, a certa altura, que o interesse das universidades brasileiras contrasta com a indiferença das portuguesas e, com alguma ironia, assinalou mesmo que faltam doutoramentos honoris causa... Lembrei-me da UBI, claro, que tem um Departamento de Artes e Letras.
Na biografia de Melo e Castro há múltiplas ocupações do engenheiro têxtil que cruzou sempre a sabedoria de tecer -- tecer palavras e versos. E Arnaldo Saraiva, falando da Beira e da Covilhã, da terra, exemplificou com poemas de E.M. de Melo e Castro alusões ao território da infância, a serra, o vale, o rio, sem nunca, no entanto, aludir a qualquer topónimo.
Foi bom estar com o poeta e ensaísta. E, ao almoço, correram velozes memórias antigas, quando o tempo era de moral bafienta e de repressão. Eu lembrei o célebre julgamento no Plenário em que, além de Melo e Castro, estavam acusados Natália Correia, Luiz Pacheco, o editor Fernando Melo, autores do nefando crime de terem publicado a Antologia da Poesia Erótico-Satírica, um grosso volume, hoje referencial na história da literatura portuguesa, subversão pura, ofensas aos bons costumes e à moral da ordem reinante, a boa ordem dos cemitérios.
-- Foi quando o Melo e Castro -- lembrei eu -- perguntou ao juiz: "Mas excelentíssimo senhor, V. Ex.ª julga que pode cortar o sexo às pessoas?"
Melo e Castro sorriu e recordou o quadro: o juiz, "o Bernardino da Facada", a espumar de raiva, a audiência à porta fechada, polícias de metralhadoras apontadas aos réus...  Claro que a pergunta agravou a pena ao prevaricador...
História do tempo do "país sem olhos e sem boca".
Como diria o Chico, foi bonita a festa, pá! E foi bom poder dar um abraço amigo a E.M. de Melo e Castro. Mais um serviço que a Casa de Cultura José Marmelo e Silva prestou à Covilhã e à região. Embora, claro, muitos não saibam.

1 comentário:

  1. Ora aqui está uma homenagem merecida e recebida ainda em presença do homenageado, em corpo e espírito. Coisa rara entre nós. Fazem-se homenagens aos mortos e cumulam-se de adjectivos e imprescindíveis quando em vida, tanta vez, ninguém lhes ligava meia.

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