terça-feira, 31 de maio de 2016

O SOL E OS ALTOS RAMOS

Hoje, à tarde: um céu fantástico que nos obriga a dirigir o olhar para o alto e um sol tão forte que nos faz tapar os olhos com as mãos. Afeiçoamos lentamente os olhos à claridade intensa. Que azul é este, tão puro e transparente que até breves nuvens navegam nele um pouco a medo e logo se dissolvem na abóbada cromática? Fixo lá os olhos, outra vez, para ficarem cheios da cor do mar e reparo que são apenas duas ou três as nuvens que flutuam muito brancas, riscando porventura sonhos no céu, como um aceno ao sol que, agora, sim, desperta aquele calor de Verão que apetece, e vai um dia destes entrar dentro da gente, sem pedir licença. O sol, então, distribui a luz fraternalmente para cumprir aquela utopia de ele nascer igual para todos. Finjamos que sim, que essa igualdade é real. Igual para tudo, acrescento já agora, pois nem é preciso chegar ao zénite para ele alcançar a totalidade do mundo elemental e físico por onde a vida caminha. É nessa abrangência que ele passa pelas ruas e pelas casas, alia-se, às vezes, à sombra, para nos ensinar a ver melhor os detalhes -- olha aquela casa de granito!, olha aquela janela!, olha aquelas árvores a ganharem outras tonalidades!, olha os verdes mais vivos ou outros mais suaves, mas todos a acenar-nos com os versos de Lorca: verde que te quiero verde! Agora, o sol viaja pelo Monte de S. Brás, com o Fundão a seus pés, poisa na Serra da Gardunha em todo o seu esplendor, nos seus bosques insondáveis, onde às vezes os altos ramos filtram a luz, mesmo com o sol a pino. É esta luz que por momentos nos deixa atónitos, pela explosão de beleza que é oferenda de deuses, e neste fim de tarde nos ensina afinal que cada instante pode ser um "milagre" vivido como aquela realidade que Goethe dizia da poesia: "a fala do infalável". Quer dizer, para se fruir como coisa pessoal e intransmissível, onde habitam continentes de ideias e de sonhos que voam com a brevidade da paisagem que se olha e não têm princípio nem fim.

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