domingo, 1 de maio de 2016

PRIMEIRO DE MAIO

O primeiro Primeiro de Maio em liberdade, na Covilhã. Eu estive lá.
O Primeiro de Maio nunca cai na rotina dos calendários porque talvez não haja outra data que contenha tanta dimensão planetária, de luta e de esperança, tanta carga simbólica em relação à afirmação de valores e da exemplaridade das lutas dos trabalhadores. O Primeiro de Maio foi sempre uma jornada de flores e fraternidade, mas também de lágrimas e sofrimento, e nessa consubstanciação talvez resida muita da força que o tempo e a história lhe foram conferindo.
Neste dia, tantos anos depois do 25 de Abril e da conquista da Liberdade, eu costumo olhar para antigamente para lembrar muitos companheiros que ficaram pelo caminho que, nunca tendo vivido em liberdade (suprema ignomínia!) assinalaram sempre o Primeiro de Maio como jornada de luta clandestina pela liberdade e contra a ditadura.
Então, às vezes, irrompiam algumas bandeiras vermelhas, juntavam-se pessoas que gritavam palavras de exigência de tempo novo, de liberdade livre, às vezes, havia greves e lutas em silêncio, coisas e acontecimentos que, não sendo noticiadas por via da Censura, para a maioria dos portugueses nunca existiram. Lembro-me de algumas dessas jornadas no Rossio em que o Primeiro de Maio se cruzava com a contestação das crises estudantis e da sempre brutal repressão da polícia de choque, que batia em tudo quanto mexia e a quem algumas canções produziam uma raiva incontida. Batiam, prendiam, era um tempo em que alguns diziam punha as ideias em estado de sítio... Era um tempo em que o Manuel Alegre, na Praça da Canção, avisava: "Quando desembarcarmos no Rossio..."
Lembro-me (como não podia lembrar-me?) das vagas de prisões de amigos, na véspera do Primeiro de Maio, no Tortosendo, quando o medo tomava tudo, como dizia o Alexandre O'Neill. Mas há imagens que evocam em mim rostos e gente e da bruma da memória parece que estou a ver, desde miúdo, o tempo em que comecei a compreender a importância do Primeiro de Maio, quando minha mãe me indicou um senhor que nesse dia subia sempre a minha rua, de fato escuro e chapéu, com um cravo vermelho na lapela, que parecia iluminar a rua toda. Era o senhor Joaquim Calvário, velho combatente que vinha do anarco-sindicalismo e do partido comunista. Ele caminhava sempre muito direito, desafiante, e eu (que depois vim a ser seu amigo, ele dizia-me desse tempo: eu olhava-os de frente, para saberem que não tinha medo!), pensava (e um dia confessei a minha mãe) como lhe fiquei grato para sempre por ela me ter ensinado através apenas de uma imagem e de um rosto que passava toda a ousadia e rebeldia que o Primeiro de Maio trazia para repartir connosco.
Depois, o Primeiro de Maio é feito de canções ("a cantiga é uma arma!"), umas tristes outras celebratórias de "Maio, maduro Maio", como cantou o Zeca. Deixo aqui duas ao vento que passa, uma do Adriano (precisamente a que fala no desembarque no Rossio) e outra do Zeca, que é uma belíssima canção, cheia de lirismo e de poesia.


3 comentários:

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  2. Obrigada Caríssimo e Estimado Fernando!!! As suas palavras continuam (desde pequena) a matar a minha sede de cultura, de ideias, de ideais, de sonho, de utopia social! O Fernando sempre foi para mim o equivalente à sua imagem do senhor Joaquim Calvário. Obrigada pela resistência (que como diz: é isso que nos compete!) e pelas músicas, são um conforto. Abraço.

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  3. Há tanto
    que não ouvia tal canto

    e, eu também
    fico reconhecido a sua mãe

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