sexta-feira, 6 de maio de 2016

UMA PAPOILA RUBRA

Agora, que os campos estão verdes "da cor do limão" e tudo floresce rente ao chão, num cromatismo difícil de decifrar, as urzes e as estevas povoam as encostas das serras que descem aos povoados e nos pomares as flores são o espectáculo que se conhece. A íntima chuva, que também merece elogio, porque tem virtualidades para vivências específicas (ficar em casa a ler ou a ouvir música, sei lá), refresca o agro e os sinais da Primavera são tão evidentes que os pássaros não abrem mão das suas sinfonias campestres, como se quisessem avisar que estes instantes não se devem perder por nada deste mundo. Este é o tempo dos caminhos se fazerem caminhando, perscrutando o imediato da paisagem, enchendo os olhos de natureza, descobrir a emergência da beleza nos lugares mais inesperados. Eu gosto de sair das rotas urbanas e acolher-me às árvores e aos bosques, perscrutar as sinfonias aquáticas das ribeiras ou dos fios de água que correm da Gardunha ou da Estrela (aqui a sinfonia é sempre mais intensa!), deter-me a olhar a sobriedade dos salgueiros ou dos canaviais, e a síntese de tudo isso não é outra coisa que uma forma de respirar alegria.
Num dia de sol intenso, a varrer de luz todo o campo, apurei o olhar a papoilas que, na ausência de trigais, abraçavam um muro de pedra solta ou se abrigavam à beira do granito. Sempre me fascinaram as papoilas, flor tão poética que Cesário Verde não a perdeu, e esse fascínio porventura vem de uma observação mais atenta à sua própria vida. À brevidade da sua duração, que, sendo breve, é vibrante de vermelho, um vermelho muito vivo que não admite diluições -- morre quando o vermelho acaba, penso eu -- deve juntar-se a sua rebeldia, pois não aceitam que as colham ou façam delas flores ornamentais. Retiradas do seu habitat murcham, pois isso as mata inelutavelmente. Olhei, então, para uma que parecia nascer da pedra de granito abandonada, à beira do caminho. Ali estava, como uma bandeira, cumprindo a sua relação absoluta com a natureza, como se afirmasse, também, a dimensão poética de uma papoila saudosa dos trigais.

1 comentário:

  1. Não é flor que aprecie. À parte o seu efémero e a garridice. E tenho dúvidas acerca do gosto de Cesário Verde pelas papoilas. Era um rubro ramo de papoilas. E nem penso que tenha sido semelhante à papoila. Na verdade era e ainda é bastante melhor.

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