quinta-feira, 9 de junho de 2016

A ESTÁTUA FEZ-SE À CIDADE

A estátua de carne e osso faz-se agora mais à cidade. Sai do seu pedestal, ao fundo da Avenida da Liberdade, um pedestal que é uma dessas caixas de madeira, meio desconjuntada, sobe a avenida,  olha as esplanadas a regurgitar de gente e caminha até à zona central da cidade, no equilíbrio instável dos seus gestos e dos seus sons que só ele entende e só a sua cabeça comanda.
Quem lhe der alguma atenção, vê-o curvar-se no garimpo das beatas, que ele resgata do chão, aproveitando a tradição do popular desporto português que é o lançamento das pontas de cigarro para o chão. Vêmo-lo, então, como quem anda à pesca, colher os restos que outras bocas fumaram, se calhar para matar o tédio dos dias.
A estátua de carne e osso anda agora mais vagarosamente, um cansaço sem idade atormenta-lhe o caminho há muitos anos, todos os dias. Sempre tivemos a sua figura diante dos olhos, pelo menos desde que, adolescente, começou a sua figuração hierática, à chuva, ao sol, ao frio, talvez à neve, pois quando ele se tornou estátua de carne e osso ainda nevava no Fundão. Observando-o, escrevi sobre ele prosas de emoção, breve atenção para aquela figura que vai envelhecendo olhando a navegação do trânsito e da vida.
Passaram os anos sobre o surdo-mudo, de etnia cigana, que tenta falar com gestos largos e sons guturais fortes, numa caligrafia que só ele sabe e é a afirmação da humanidade mínima da sua forma de estar. A maioria tolera mal a imagem movente da estátua e desvia os olhos de uma estranha silhueta, que em plano aproximado é um homem, de rosto lavrado por muitos sóis e muitos frios. 
Está velha a estátua de carne e osso, os cabelos brancos não disfarçam os sulcos do tempo. Costumo dar-lhe uns trocos para tabaco, que é o que pede. Ficou à espera. Logo alguém disse: espante-o! 
Quando lhe estendi o tabaco, toquei-lhe ao de leve no ombro. Não está acostumado ao contacto humanitário, abriu muito os olhos. Fez gestos e falou a sua linguagem de sons guturais. Eu fiz-lhe sinal com o polegar voltado para cima, para lhe dizer que estava tudo bem. Fez-se de novo à cidade, mas a mim pareceu-me que ele sorriu. Pensei que aí estava uma coisa, sorrir, que também lhe fora roubada desde a infância.
Horas depois, a estátua tinha regressado ao seu poiso. Por sinal, estava um sol que queimava!

1 comentário:

  1. Que belíssimo retrato, Caríssimo Fernando! Conseguiu que eu também sorrisse e sentisse uma ternura anónima por uma estátua também anónima, mas que deixou de o ser... Obrigada!

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