segunda-feira, 27 de junho de 2016

A MÁQUINA DO DESESPERO...


ILUSTRAÇÃO DE ZÉ DALMEIDA
Não perco, por nada, a leitura de Manuel Rivas, como cronista-escritor (ou como escritor-cronista!), pois ele combina admiravelmente nas duas funções um humaníssimo olhar sobre o mundo, sobre realidades próximas ou longínquas, sobre quotidianos que ele sabe arrancar da opacidade do silêncio para lhes dar dignidade e dimensão humana, sempre numa perspectiva mais universal. Hoje, no El País Semanal, fui por ele até Camus, autor do coração, a que é preciso regressar sempre. Rivas escrevia este domingo sobre Espanha e lembrou-se do autor de O Estrangeiro pelo seu amor à pátria de Cervantes ("A única terra onde me sinto plenamente eu mesmo, o único país do mundo em que se sabe fundir, numa exigência superior, o amor e o desespero de viver"). O cronista citava o compromisso de Camus contra, nos ambos de chumbo da Europa, a "injustiça triunfante na história". Esta expressão fez-me pensar muito nos tempos actuais de triunfante desumanidade, como se tudo aquilo que foram infernos (agora mais ou menos climatizados!) estivessem de regresso para imporem irracionalidades e absurdos.
Manuel Rivas toca, pelas palavras de Camus, na hipocrisia reinante: "O que não posso perdoar à sociedade política contemporânea é que se converta numa máquina para fazer desesperar os homens". Esta máquina de desespero, que foi no que se transformou a Europa, deve levar-nos a pensar e, sobretudo, a reclamar os valores originários, onde, além da paz -- ou por isso mesmo -- o projecto europeu era uma hipótese de felicidade por cima das fronteiras, na perspectiva de utopia de que o que mais contava eram os cidadãos e a luta contra as desigualdades.
Parar a máquina de desespero é, pois, uma política com carácter de urgência. Volto a Manuel Rivas, na caricatura da "máquina para fazer desesperar os homens": "Uma Europa que cortou o passo aos náufragos da história e que já limita com o grande cemitério marinho (...). A recusa em acolher as vítimas que buscam refúgio, fugindo de uma morte provável, é a primeira actividade da "máquina de para fazer desesperar. Para isso é, é uma incessante produtora de ódio face aos mais vulneráveis, "milhares de seres bloqueados como moscas no fundo de uma garrafa". A sua última manifestação foi o Brexit, com declarações inqualificáveis de líderes que se supunha responsáveis: os imigrantes de Calais assinalados como um perigo para a "identidade étnica".
Em 1985, o meu querido Zé Dalmeida publicou um cartoon que caricaturava a perplexidade do Zé Povinho face à Europa. O que isto se agravou! Hoje, o Zé Povinho podia ser substituído por muitos outros Zés Povinho da Europa, que as perplexidades dilatam-se à medida que correm os dias.

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