sábado, 18 de junho de 2016

A PREMONIÇÃO DE MAHLER

Vala comum num campo de concentração nazi
Tinha ouvido Leonard Bernstein explicar a Nona Sinfonia de Mahler e dizer como aquela peça sinfónica era uma espécie de "testamento" do compositor e de como ele, premonitoriamente, falara do século XX como século da morte. Bernstein falava da Nona Sinfonia e das três espécies de morte que a música consubstanciava, desde o próprio fim de Mahler, que ele sabia estar iminente, à morte da tonalidade (que para ele significava a própria morte da música) e a morte da sociedade a uma escala global, o que era, então, um conceito inovador para o tempo. Ainda não se adivinhavam as guerras, as máquinas de morte não eram pasto de atenção, o absurdo e a irracionalidade contra a dignidade humana não entravam nas contas do quotidiano. Mas Mahler tinha razão: vinha aí a morte, em grande escala!
Os crimes foram de tal ordem, que só me lembro da tela de Munch, O Grito, para simbolizar como o terror foi um inferno que matou tantos milhões que a contabilidade é sempre difícil ou mesmo impossível de fazer. Quando o calendário caminhou para a fronteira do ano 2000, Max Gallo fez uma radiografia do século XX: Manifesto para um fim de século obscuro.
E, de factoo fim do século, apesar da festa, e dos muros e fronteiras que caíam, às vezes para os dois lados da História, deixara um travo amargo na boca do mundo e não faltaram inventários de valas comuns e genocídios, de holocaustos e gulagues, de totalitarismos e dos seus mecanismos mais ou menos envernizados (lembramo-nos sempre de Hannah Arendt), de golpes e ditaduras militares, como no Chile, no Brasil e na Argentina, que instituíram o assassinato e a tortura com as bençãos dos kissingers, de conflitos periféricos, chamemos-lhes assim, que contabilizavam milhões de mortos, fomes mais ou menos esquecidas, banalizadas pela lonjura, continentes como a África, descartáveis pela indiferença e hipocrisia internacionais, terra outra vez de condenados da terra, na perspectiva de Fannon, à espera de amanhãs que já não voltam a cantar; agora morrem em barcas artesanais ou traineiras, à beira das praias, despedaçados pelo sonho de uma aventura de pobres, como é a emigração em busca da Europa.
Mahler adivinhou, penso eu agora, enquanto oiço a Nona. Mas o que me levou a reflectir, uma vez mais, sobre estas questões, foi uma notícia do "El Pais", intitulada Infância de terror, que conta a história de milhares de meninos desprotegidos torturados em internatos franquistas. A jornalista Carmen Morán baseia-se no livro Os Internados do Medo, acabado de sair, que recupera "as penúrias daquelas crianças e relata a atitude dos seus agressores, que vestiam sotaina, e os funcionários que permitiram que o delito fosse uma forma de vida consagrada por Deus". O filme de terror: "Eram meninos a quem queimavam suas partes ou meninas obrigadas a comer seus vómitos (...) Algum morreu por agressões outros passaram duas horas e meia em banho de água gelada em pleno inverno..." Quem eram os meninos? Responde o livro: "Tudo recaía quase sempre sobre os mesmos: filhos dos presos políticos, de mães solteiras, os mais desprotegidos".
Os delitos prescrevem, diz a jornalista, mas as vítimas mantêm-se. Este medo, este terror, era prenúncio dos fascismos e do nazismo, era pequeno ensaio para a indústria da morte que iria fazer do século XX um século muito obscuro e cujas sombras de negação do homem continuam a projectar-se sobre os dias de hoje.
Mahler adivinhou!

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