quarta-feira, 1 de junho de 2016

ÀS VEZES, TENHO SAUDADES...

Às vezes, tenho saudades de lugares e sabores que, de tão singulares no inventário dos dias, a memória, que dispensa sempre o supérfluo, gradua como coisas para lembrar. Nessa viagem, que visa sempre a descoberta de referências prodigiosas, paisagens e comida têm sempre dimensão de prazer que nos apetece, como desejo, voltar a elas, para chorar por mais.
Por mais dias que passem, não esquecerei o cabrito das Aradas, onde fiz expedições gastronómicas com amigos de perto e de longe, e a gastronomia, de tão autêntica, parecia ter o sortilégio de séculos de sabedoria, que as cozinheiros, senhoras de antiquíssimos saberes, exibiam com a naturalidade dos artistas quando produzem arte. Eu frequentava as Aradas com regularidade, na companhia do Diamantino Gonçalves.
A aldeia -- ou o lugar --ficava ao cimo de um vale onde um fio de água escasso transformava os campos em jardins. Um dia, com amigos de Lisboa, capitaneados pela curiosidade do Hélder Santos, fomos lá com um autocarro de alto turismo, todo apetrechado com as tecnologias da modernidade. O autocarro, que não cabia na pequena ponte,ficou longe, e os viajantes tiveram que dar ao pé para chegarem lá acima, às Aradas, onde ficava o restaurante.
A Casa de Pasto, digamos assim porque o qualificativo é bom, dividia-se por um café de aldeia para a população residual, e uma sala ampla de restaurante, sempre animada por legiões de comensais que, de várias partes do país, vinham ao "cheiro" deste cabrito ou também do bacalhau e de outras iguarias, que tudo ali era bom.
Claro que os meus amigos de Lisboa, experimentados em longas viagens onde a paparoca era sempre aspecto determinante, ficaram suspensos do "milagre" que acontecia nas Aradas. Passaram a ir lá, propositadamente, individualmente ou em grupo,para repetirem a degustação do bicho de carne tenra, alimentado nos verdes prados do vale ou nas montanhas.
Podia, também, falar no Arneiro, aldeia à beira Tejo, perto de Vila Velha de Ródão, onde, felizmente, se comem umas migas de peixe do outro mundo, se é que no outro mundo há iguarias destas, porque neste em que estamos elas podem ter sido abençoadas pelas imagens que os olhos podem colher do mais belo rio, numa passeata pelas margens, ou depois do deslumbramento das Portas de Ródão, que se vêem antes de se chegar ao Arneiro.
Andava nestas navegações de puro prazer da memória, que é sempre bom exercício, quando leio uma crónica muito curiosa de Manuel Vicent, no "El Pais", com o título Comer, ler, em que o escritor dizia que "ler e comer são duas formas de alimentação e também de sobrevivência" e "não saberia dizer qual é mais orgânica, mais íntima, mais necessária". E depois contextualizava: "Sucede que hoje os mais refinados crêem que comer é também uma filosofia e mastigam lentamente os alimentos pensando na sua natureza ontológica, imaginando o largo caminho que percorreram até chegar à mesa. Alguém lançou a semente, regou as hortaliças, podou os pomares, saiu de madrugada a pescar, apascentou o gado. Alguém os cozinhou com amor e sabedoria, com a cultura culinária que arranca do neolítico". "Os que comem assim tratam de converter também a sobremesa num exercício moral, quase místico e não necessitam nenhuma aprendizagem de tantos master chefs insuportáveis", acrescenta o cronista.
Noutro plano, "existem leitores esquisitos que lêem buscando em cada livro a ilha do tesouro e encontram sempre o cofre do pirata" e "hoje a cozinha e a leitura estão mudando de substância: a cozinha caiu debaixo da ditadura dos master chefs que exercem o papel de intermediários do gosto com seus pratos estruturalistas e a leitura instalou-se em suportes digitais que impõem as suas regras ao pensamento com as suas múltiplas aplicações".
Prevalece "a leitura rápida, breve, fragmentada, superficial, líquida e imediata", o que pode ser um empobrecimento, acrescento eu. Em síntese: "os novos cozinheiros obrigam-te a admirar as suas instalações artísticas no prato sem se preocuparem com o que sucede depois no estômago".
É, também por isso, que às vezes tenho saudades de outros lugares e de outros sabores.

1 comentário:

  1. Está muito bem esta análise do gosto e suas variações.

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