domingo, 12 de junho de 2016

O ELOGIO DA SERENIDADE

Há pessoas que fizeram dos dias vividos uma projecção de humanidade e bondade sobre o futuro e que, nessa discreta viagem no tempo que foi o seu, somaram contributos de inteligência e sabedoria, de exemplaridade ética e cidadania, fazendo da partilha do conhecimento um modo de vida e deste nó de terra que é Portugal uma questão primordial. O Prof. Paquete de Oliveira, que este sábado, nos deixou, é uma dessas figuras singulares a quem todos devemos muito por um persistente magistério de ideias, na área da comunicação e dos "media", no debate e na identificação de problemas que se articulam decisivamente com o nosso tempo e que Paquete de Oliveira aprofundou para estabelecer aquilo que poderíamos designar como a emergência de promiscuidades que inquinam hoje as relações entre o poder e a informação.
Talvez ninguém, como ele, tenha compreendido tão bem esse traço definidor das sociedades modernas e por isso tem a seu crédito um papel tão inovador, no plano académico, na afirmação da importância dos "media" como matéria de inquietação, de estudo e de investigação, dentro da Universidade que, dizia ele (Mário Mesquita lembrou bem essa perspectiva global), deveria sempre estar aberta ao mundo. 
Homem dos jornais, que foram sempre uma grande paixão, o Prof. Paquete de Oliveira, em certo sentido, nunca deixou de ser jornalista, e isso ficava bem expresso nos cargos de responsabilidade que ocupou como Provedor dos espectadores na RTP ou dos leitores, no "Público", cargo de que sexta-feira se despediu numa comovente carta, em que a premonição da morte era a questão. Essa relação de vida com os jornais também marcou muito a sua obra académica, que é variada e de alta qualidade, porque ele conhecia aquele universo bem por dentro, e, como dizia o poeta, por dentro das coisas é que as coisas estão.
Gostaria, todavia, de trazer a estas linhas, que são já de saudade, a dimensão humana do cidadão Paquete de Oliveira. Eu tive o privilégio de o ter como companheiro no Conselho Geral da UBI, onde era o nosso (acho que poderei dar à fala expressão colectiva) ilustre Presidente, e, conhecendo-o, como o conhecia, não estranhei a forma como ele colocava, acima de tudo, os problemas da Universidade e dos estudantes, mas para mim não deixava de ser surpreendente o ofício de paciência que Paquete de Oliveira exercitava na condução dos trabalhos, sem querer ferir os direitos de ninguém, numa disponibilidade para ouvir todos, no sentido de que a democracia não se esgota, nem tem horas marcadas. Essa faceta, decerto singular, num tempo em que a pressa parece comandar tudo, aliou-se a outra de não menor importância, que radicava na experiência do Professor em idênticas funções ou mesmo de direcção, como por exemplo no ISCTE, a sua casa-mãe.
Parece que o estou a ver, com a sua atenção minuciosa, a desejar sempre a elevação do debate, com o seu olhar de homem bom, como se fosse o comum dos homens. E fazia tudo isso, mesmo quando a doença o estava a minar, por dentro, com uma sobriedade tocante. Às vezes, olhava para ele e pensava que ele fazia nessas reuniões longas, pela sua postura, o elogio da serenidade. Penso que uma vez, porque tinha comigo os poemas de Raul de Carvalho ("Vem serenidade... és minha"), lhe falei nesse retrato que eu fazia dele; e ele sorriu, pôs-me a mão no ombro, dizendo-me que a poesia é bom agasalho para qualquer um.
Na última sessão a que presidiu, com um comportamento notável de independência e isenção face a interesses instalados, achei-o muito fragilizado, com a emoção à flor da pele. A sua dimensão solidária levava-o a falar comigo dessas questões limite da saúde, e a conversa resvalava às vezes para as questões que temos connosco mesmo: a finitude do tempo, a sua escassez para mil projectos de leitura e outros, a linha que conduz à fronteira entre a vida e a morte. Ouvindo-o e pensando agora em tudo, que é o que fazemos quando ficamos face ao irremediável, acho que as suas palavras queriam apenas dizer aquilo que é um desejo comum: entrar na morte de olhos abertos!
Não esqueço, contudo, que um dia, submersos pelos queixumes da vida (quando a dor começa o seu cerco), o Prof. Paquete de Oliveira me disse uma coisa em que não deixo de pensar, sobretudo agora que ele nos deixou. Quando as sombras parecem irremediáveis, disse-me ele, a sorrir, é que nós nos damos conta que viver é uma aventura maravilhosa. 
Foi disso que me lembrei quando voz amiga me deu a notícia triste que o Prof. Paquete de Oliveira tinha partido para a grande viagem. A aventura maravilhosa tinha chegado ao fim.

1 comentário:

  1. Essa certeza da vida como maravilha é talvez o nosso canto de cisne. Não o vi senão na TV, mas, pelo que li, é pessoa que engrandece o mundo.

    ResponderEliminar