quarta-feira, 15 de junho de 2016

O REINO DA ESTUPIDEZ

Um dos tiques mais nefastos no que toca ao debate de ideias, na sociedade portuguesa, é a afirmação de um certo analfabetismo de galeria, de lugar selecto nos jornais, que conduz uma teia de mistificações de pôr os cabelos em pé. O que isso representa é um certo e proclamado regresso ao "reino da estupidez", afirmado alegremente por arautos às vezes ao serviço de pecados inconfessáveis.
O historiador José Pacheco Pereira tratou desse assunto, chamando o nome aos bois, em dois artigos que escreveu no "Público", o último dos quais no último sábado, com o título "A máquina da ignorância ao serviço da política que não ousa dizer o nome". Na caracterização da problemática, Pacheco Pereira interroga-se:
"Vale a pena a gente perder tempo com as inanidades que por aí se escrevem sobre "fascismo" e "comunismo", ainda por cima supostamente "demonstradas", como diz José Rodrigues dos Santos, num livro de ficção? Vale e não vale. Nem são novas, nem são informadas, nem são interessantes, nem nada. O que vale é usá-las para mostrar o que elas significam: a possibilidade de, em 2016, se proferirem inanidades em público para voltar a uma variante de anticomunismo que a radicalização da vida política à direita precisa à falta de melhor para combater a “geringonça”. Não precisamos de tomá-las a sério no seu conteúdo e bramar que criticá-las é pôr em causa o “direito à liberdade de expressão”. Apetece-me nestes casos virar crente e dizer ao Senhor: “perdoai-lhes por que não sabem o que dizem”. Já não direi que “não sabem o que fazem” porque acho que sabem mais o que fazem do que o que dizem. O que não dizem é o que fazem".
Pacheco Pereira, quase em termos de conclusão, escreve:
"Mas isso leva-me a ter quase dó com estes exercícios de propaganda menor, mas de intencionalidade maior, porque este anticomunismo de opereta, nem sequer é um verdadeiro anticomunismo, é um anti-socialismo, é um anti-social-democracia, é a substituição do pensamento da democracia por uma espécie de digesto empresarial que encontra na experiência de Singapura o seu ideal. É que nem sequer é o PCP que eles querem atingir, é o PS, é António Costa, são os social-democratas que ainda não têm vergonha do nome, é o dificílimo engolir da perda do poder, é a falta do exercício de mandar e é a consciência de que, sem as sanções punitivas e a “lei de ferro” da Europa, não chegam lá tão cedo. Enquanto isso divertem-se achando-se geniais com estas boutades gráficas e verbais que brincam com um fogo que eles não sabem sequer que existe."
Nesta radiografia do historiador estará, porventura, contida a célebre afirma de Schiller: "Contra a estupidez até os deuses lutam em vão". Parece bem que sim.

2 comentários:

  1. Apesar da vã luta, até dos deuses, cabe-nos continuar sempre a lutar contra a estupidez!

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  2. Apreciei a frase, "O que não dizem é o que fazem". De acordo.

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