sexta-feira, 10 de junho de 2016

OS ASSASSINATOS DA MEMÓRIA

Há uma espécie de morte branca na sociedade portuguesa, que gosta de enterrar no esquecimento  os seus fantasmas, os seus traumas, as suas incompatibilidades colectivas com a dignidade humana. Essa morte branca, nas sociedades como nas pessoas, bem o ensinou José Cardoso Pires em " De Profundis, Valsa Lenta", torna-as só nâmbolas, desorientadas face ao seu universo, gradualmente desapossadas da sua identidade.
Num país como Portugal não faltam, na sua hisória longa ou mais próxima, assassinatos de memória, que sempre se cometeram com a mais descarada e total impunidade. Há uma vala comum, larga e profunda, desses crimes cometidos na voragem de interesses espúrios à realidade colectiva.
Daí querer hoje chamar a atenção para o artigo que a Prof. Irene Pimentel, que tem feito um notável trabalho de investigação para trazer à superfície da luz muitas dessas realidades históricas perdidas no labirinto da incomodado, ontem publicou no "Público", sob o título "Foram os elementos da PIDE/DGS presos e julgados?"
A historiadora desenha as ambiguidades que rodearam a questão da Pide, após o 25 de Abril, e acusa ter havido "em Portugal um processo de justiça política, embora incompleto e marcado por sentenças benévolas, atenuantes e perdões". Irene Pimentel radiografa o caso com radiografias de estatísticas e procedimentos e assinala que "a memória da Ditadura e do seu aparelho repressivo se foi diluindo em nome do presente e da construção de um futuro e que, embora haja uma sensação de impunidade, já passou, salvo melhor opinião,  o tempo de exigir qualquer "accountability" em tribunal ou mecanismos de procura de verdade".
Para Irene Pimentel, "o papel principal cabe agora à continuação da recolha de Testemunhos e de memórias, mas sobretudo à História".
Há, todavia, uma tipologia de crimes contra a dignidade humana (digamos: contra a humanidade), que, pela sua natureza, nunca prescrevem, e é por isso que, da Espanha à Argentina ou ao Chile, esse ajuste de contas com a memória tem sido, muitas vezes, exemplares.
Por cá, eu gostaria de dar um beijo à Helena Pato pelo trabalho persistente, e sem desânimo, em louvor da memória do que foi a resistência ao fascismo (resgatando do silêncio nomes e acontecimentos), no seu "site" Fascismo Nunca mais.
E, já agora que falamos em Pide e em justiça, em tantos crimes sem castigo, é bom não esquecer as mascaradas que foram os Tribunais Militares e a forma abjecta como não quiseram punir verdadeiramente os assassinos do General Humberto Delgado, ou como julgaram benevolamente os agentes da Pide, e o papel miserável, sobretudo do ponto de vista moral, dos magistrados que fizeram parte dos Tribunais Plenários, legitamadores de todas as ilegalidades, de todas as torturas, de todos os crimes da Pide, e que não foram minimamente beliscados (nem me lembro  que a magistratura portuguesa tenha alguma vez feito "mea culpa" colectiva dessa situação!), e foram todos promovidos alegremente, alguns acabando no STJ.
Lembrar, é preciso lembrar, como fez a historiadora Irene Pimentel em relação aos fascínoras da Pide/Dgs.

Sem comentários:

Enviar um comentário