quinta-feira, 23 de junho de 2016

QUANDO BEIJAR ERA PROIBIDO!

Cartoon de João Abel Manta
Era um casal de jovens, mochila às costas, que parecia respirar já a antecipação das férias. Abriam ambos um sorriso de felicidade absoluta, e, quando estacionaram na esplanada, foi uma aleluia de alegria que poisou na sisudez circunstante. Poisaram as suas alfaias -- as mochilas onde parece que transportam o mundo -- numa cadeira vaga, e colocaram logo na mesa os computadores, afinal tinham trabalhos em agenda. Observei-os com maior atenção: seriam porventura da universidade, que tem uma população flutuante e juvenil admirável. Mas isso era, na composição da imagem, um factor acessório. O que verdadeiramente sobressaía era que ambos compunham um retrato de rara beleza. Ela, sobretudo, era um rosto luminoso, de olhos rasgados, um cabelo que lhe caía sobre os ombros, e sorria muito; ele, não lhe ficava atrás, cabeleira ao vento, mais contido nos gestos e nos sorrisos. Trabalhavam alegremente e a faina só foi interrompida quando ela disse:
-- Está um calor! Apetece-me um gelado...
Ele disse que sim, que era boa ideia, mas foi ela que os foi buscar, com gestos e passos elásticos de bailarina, sem que antes perguntasse, a meio da viagem:
-- Que sabores queres?
Ele levantou a cabeça, e sorriu:
-- Morango e chocolate!
-- Esses são os meus! -- respondeu ela. -- Macaquinho de imitação...
Vieram os gelados, e depois pediram duas águas frescas e um café. Ela furtou-se à cafeína:
-- Já hoje tomei um!
-- Ora, um! -- protestou ele. -- Isso é coisa de meninos, não ouviste dizer que cafeína faz bem...
Voltaram ao trabalho e, quando olhei uma hora depois, tinham terminado certamente com sucesso a equação em que estavam mergulhados. Sorriram um para o outro. E foi ela que se chegou muito a ele para um abraço forte e um beijo prolongado, na boca.
Voltaram às mochilas e fizeram-se à cidade, como se estivessem a caminhar no futuro.
Numa das mesas, ao lado, uma assembleia feminina, que se adivinhava de gente aposentada.
-- No meu tempo, não havia nada disto, agora é o que se vê! -- disse uma delas, incomodada com o beijo.
Mas logo outra laminou com ironia o desastrado comentário:
-- No teu tempo não havia nada disto porque era proibido!
Gargalhada geral.
De facto, até Abril chegar, Portugal era o país onde beijar era um delito comum. Ainda haverá saudosos desses tempos ominosos?
Não sei porquê lembrei-me da espantosa cena dos beijos censurados no admirável "Cinema Paraíso".

1 comentário:

  1. Não acredito que alguém tenha saudades desse tempo.E gosto de ver assim o futuro a fazer-se à vida sem preconceitos.

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