quarta-feira, 8 de junho de 2016

VOLTAIRE CONTRA-ATACA

Haverá poucas figuras, como Voltaire, capazes de nos fazerem pensar com tanta profundidade a real condição humana e de como é aí que reside a incessante batalha em louvor da humanidade. Há, depois, uma afirmação de coragem e coerência no seu pensamento filosófico que o torna intemporal na perenidade de um olhar sobre o Homem que contém, sempre, a sua realização num compromisso de libertação dos jugos dogmáticos, dos atavismos do meio, das subserviências que visam condenar as pessoas às diversas formas de escravatura. O que ele postulou sempre e projectou sobre o tempo que foi o dele e o futuro foi a irrecusável condição de cidadão, como afirmação de dignidade contra a infra-humanidade da servidão.
Um dia -- alguém contou -- perguntaram a Voltaire qual era a sua relação com Deus. Dizem que ele respondeu:
-- Cruzamo-nos algumas vezes, mas não falamos um com o outro!
Mas Voltaire vem hoje a Notícias do Bloqueio, porque foi publicado recentemente em Espanha (tarda em Portugal) o livro póstumo de André Gluksman Voltaire Contra-Ataca. Glucskman morreu em 2015, quando o seu último livro estava prestes a sair.
Então, pela sua mão, é Voltaire que volta à ordem do dia. O jornalista Borja Hermoso, do "El Pais" faz um excelente texto sobre um acontecimento cultural que excede, e muito, o fenómeno meramente literário. Ele conta, aliás, uma história que dá logo a dimensão de Voltaire na sua pertença simbólica à universalidade comum. "Em 1989, o ayatola Komeini ditou uma fatva condenando à morte Salman Rushdie. Numa parede de Londres apareceu uma inscrição irónica: "Que alguém avise Voltaire!"
Essa consciência de que o tempo de Voltaire está, de uma forma ou outra, sempre presente, pode colher-se numa outra história referida pelo magazine literaire, em 2005, numa número monográfico sobre Sartre e onde os acontecimentos de Maio de 1968 tinham, também, abundante reflexão. O engajamento de Sartre na luta estudantil, a sua busca dos fundamentos de uma nova ordem e da natureza do futuro, valeram ao filósofo a ira do poder instável, a fúria da direita e ultra-direita. François George, que escreve sobre o tema, diz que repetiram com Sartre a acusação que levou Sócrates à morte: está a corromnper a juventude! Diz o ensaísta que alguns espíritos mais ortodoxos, defensores da Argélia francesa, urraram: "Fuzilem Sartre!" E, "outros, ficariam contentes com uma prisão..." "De Gaulle -- conta George -- teria respondido: não se prende Voltaire!"
Regressemos ao livro de Gluksman: "Dediquei a minha vida adulta a combater o beatífico optimismo dos dogmatismos, dos idealistas, dos bem-aventurados ideólogos convencidos do progresso inelutável da História, tentei desbaratar  a enganosa benevolência dos mistificadores que prometem o paraíso assim na terra como no céu, enquanto nos conduzem ao inferno".
Glucksmann, que mergulha no conto de Voltaire Cândido ou o optimismo, vê "essa viagem do anti-herói voltaireano que percorre o mundo e sofre na carne a tragédia do ser humano, como metáfora dos horrores e dos erros contemporâneos do género humano". Sobretudo, "arremete contra o cinismo disfarçado de Pangloss, o tutor do pobre Cãndido", contra o optimismo histórico "e lamentam  as hipócritas vontades de salvar a humanidade que têm os poderosos de altar e de palácio".
Lembra Glucksmann que Voltaire dizia que "o mal é irremediável" mas "por questões morais estamos obrigados à subversão".
Gosto sempre de repetir um princípio de Voltaire: "Não gostaria de ser feliz à condição de ser um idiota".

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