quinta-feira, 7 de julho de 2016

BOLA PRÁ FRENTE, RAPAZES!

Com a justíssima vitória de Portugal (2-0 ao País de Gales) e a sua classificação para a final do Euro, está dilatada a euforia do ego nacional e elevados ao infinito os níveis do património doméstico. Mas o futebol tem, dentro de si, o "milagre" de não nos deixar, colectivamente, indiferentes. Lima todas as arestas de inquietação e anestesia os maiores desesperos, liberta as emoções em estado puro, reconforta a expulsão de adrenalina.
Quando o Brasil era o melhor do mundo, num dos mundiais em plena ditadura militar, com legião infindável de prisioneiros políticos, muitos dos quais eram assassinados por "esquadrões da morte", decidiram os presos políticos nos cárceres não entrar na possível festa da vitória do Brasil, pela dimensão e aproveitamento político que o acontecimento tomava à escala do planeta.
Parece que a intenção só foi cumprida inicialmente, pois a festa do golo era, já, irresistível.
Quem não recorda o aproveitamento do futebol pelas ditaduras (até de Salazar, claro!), mas sobretudo na Argentina e no Chile, com os jogos no estádio de Santiago, que Pinochet transformara, durante o golpe, em prisão, em campo de tortura e açougue?
É verdade isso tudo, mas a magia do futebol toma conta de nós como se fosse uma inevitabilidade. Ainda recentemente, o último número do Magazine Littéraire publicava um interessante artigo sobre o fenómeno -- Foot Des Mythes à Pied d'Ouvres -- em que analisava a relação do futebol com a literatura, num texto onde lembrava  o entusiasmo de Camus (lá está com uma equipa argelina, em 1937) e de Pasolini, equipado a preceito, num relvado, com bola no pé, em 1970. Pasolini chegou mesmo a afirmar que "depois da literatura e de Eros, o futebol é para mim um dos maiores prazeres".
Já publiquei neste espaço uma admirável crónica de Carlos Drummond deAndrade sobre esta matéria: "O futebol entre o céu e a terra". E a crónica de Drummond, que discorria sobre a magia do futebol, terminava em tempo de mundial com este vaticínio: "Bola prá frente!"
É isso que eu digo agora, pensando em Portugal, na final de domingo, "Bola prá frente", rapazes! Vamos a eles!

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