quarta-feira, 6 de julho de 2016

ELIE WIESEL, LEMBRANÇA

Uma das coisas que sempre me fascinou em Elie Wiesel, que há dias morreu em Nova Iorque, aos 87 anos, foi ter aliado sempre a sua condição de sobrevivente de Auschwitz a um combate pela memória, procurando resgatar do esquecimento o inferno do Holocausto. É certo que a descida aos infernos dessa ignomínia da História, dessa irracionalidade tão absurda que a realidade do drama, não sendo imaginável, se transforma em pesadelo, torna inquietante a célebre perplexidade de Adorno, quando escreveu que, depois deAuschwitz, a poesia deixou de ter sentido.
Seja como for, a morte de Elie Wiesel devia pôr de luto a humanidade inteira. Não esqueço as suas palavras (que agora reli no "El Pais") ao receber o Prémio Nobel: "Recordo-o. Sucedeu ontem ou há uma eternidade. Um jovem judeu descobriu o Reino da Noite. Recordo o seu desconcerto, recordo a sua angústia. Tudo sucedeu tão depressa. O gueto. A deportação. O vagão de gado selado. O altar ardente onde a história da nossa gente e o futuro da humanidade haveriam de ser sacrificados. Recordo que perguntou a seu pai:
-- Isto pode ser verdade? Isto  é o século XX, não a Idade Média? Quem pode permitir que se cometam crimes assim? Como pode o mundo permanecer em silêncio?
E agora, esse jovem olha-me a mim: "Diz-me, pergunta, que fizeste com o meu futuro, que fizeste com a tua vida?" E eu digo-lhe que tentei manter a memória viva, que tentei lutar contra aqueles que esquecem. Porque se esquecemos, somos culpados, somos cúmplices". Para Elie Wiesel, sempre foi muito claro: "Esquecer os mortos é o mesmo que matá-los pela segunda vez".
Elie Wiesel: um nome, um rosto, um combatente por um mundo melhor. E lembro sempre que as suas persistentes batalhas pelos direitos humanos eram sempre globais e não restritivas ou de conveniência, como o Ocidente tanto gosta, ainda hoje, de fazer. Onde quer que a dignidade humana estivesse a ser espezinhada, a voz de Elie Wiesel levantava-se.

1 comentário:

  1. Não concordo com Adorno embora entenda o que disse. O caminho de Elie Wiesel, aliás, é uma prova da sua mesma discordância. O mundo tem de continuar a lembrar-se do que aconteceu para que não tenha sido em vão. Para que se saiba e se respeite quem morreu não repetindo ou deixando repetir erros do mesmo calibre. Ou seremos todos nazis.

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