terça-feira, 26 de julho de 2016

INSTANTES SUBLIMES




Torga, que conhecia como ninguém a Serra da Estrela e a definiu como matriz essencial de vida, ensinou a olhar para a monumental madre orográfica com olhos de afecto, capazes de entenderem as macro e as micro realidades, os instantes únicos que as paisagens de horizontes rasgados ou as particularidades de lugares (detalhes para a memória e o coração) transformam em oferendas de deuses, se acaso eles existissem. O poeta fascinou-se pela Serra e esse fascínio deixou-o bem expresso em “Portugal”, quando afirma que a Serra da Estrela concentra em si tudo, do granito e da água, ao queijo e à lã, um mundo que no plano humano, pela força telúrica, também tocou Mestre Gil na sua dramaturgia fundadora do teatro português.
Nestes dias de Verão, mesmo quando o sol está no zénite, acontece quase sempre a suave música do vento, uma brisa suave que lavra o rosto de frescura, ou a surpresa dos fios de água que se descobrem em lugares improváveis, mas a Serra traz sempre consigo o milagre de surpresas e de um tempo que, ao longo do dia, se desdobra nelas como mágicas explosões de luz. Então essa surpreendente luminosidade, com o sortilégio da sua matéria solar, oferece-nos aqueles “pequenos nadas” de que é feita a vida (e estou outra vez a citar o poeta) e que nos deixam suspensos pela força da realidade.
Caminhando pelo planalto do Curral dos Ventos, ao fim da tarde, foi esse mundo que fui encontrar. Um mundo de diversidade tão amplo que em cada passo, em cada metro, a paisagem se transforma. Mudam-se os grandes planos dos horizontes infinitos de montanhas azuis que se diluem no céu, mas na proximidade estão muitos “pormenores de Deus”, como diria Steiner, se ele por cá tivesse vindo. Pedras elevadas à condição de montanhas dentro da montanha, tufos de flores mágicas, outras pequenas, de cor azulada, que rompem à flor da pedra. O sol, agora coado pelo fim da tarde, recorta docemente essa diversidade de imagens que polarizam estes instantes sublimes.

1 comentário:

  1. É um texto tão bonito como a citação de Steiner, "pormenores de Deus". Os pensadores poetas são uma benção. Talvez de Deus.

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