quarta-feira, 20 de julho de 2016

LISBOA, BABEL EM MOVIMENTO

Um dos aspectos mais fascinantes de Lisboa é a densidade humana da sua multiculturalidade, a expressão quotidiana da diversidade de mundos que a cidade, no respirar dos seus fazedores, um certo arco-íris humano,  contém como traço identificador. Penso que é nestes olhares avulsos sobre a realidade urbana onde estamos, que tem sentido a ideia um dia formulada por Pierre Sansot de que as cidades têm a sua poética, uma poesia que decerto poisa, sem pedir licença, nas virtualidades das paisagens físicas e humanas.
Lisboa, que o José Cardoso Pires dizia ser cidade de navegar (caminhar), tem essas singularidades poéticas, para mim bem visíveis no cruzamento de mundos, que podem ser a imagem planetária das crianças, esses continentes de ternura. Sobe-se ao Miradouro da Graça (agora em obras) ou da Senhora do Monte e pressente-se a universalidade da cidade, território de sonhos e de vidas, portento de dinâmicas sociais e de lutas, decerto não faltam no seu pulsar vital angústias, desesperos, gestos de amor e esperanças.
Ainda agora a olhava numa perspectiva global, cidade de horizontes rasgados ao futuro, pensando a escala da sua universalidade, mas logo caminhando pelo bairro da Graça, nas suas ruas afluentes, nos seus rios buliçosos de gente, a minha atenção poisou na música dos vários falares, esses mundos idiomáticos que só têm expressão tão forte quando a cidade tem a sua genética ligada ao mundo, numa história de partidas e chegadas, de regressos e de saudades, como na canção crioula de Cesária Évora.
Então, é nessa música que me fixo, olho famílias transportando consigo memórias longínquas de outras pátrias, os olhos grandes das crianças, e penso que nesta Babel reside, também, uma das riquezas essenciais do coração de Lisboa.
Gosto da música desta Babel em movimento.

1 comentário:

  1. Gosto de Lisboa e nunca a pensei como uma babel, gosto dela como é, com a paisagem humana e a outra e a nenhuma conheço bem. Talvez eu goste dela como se gosta da família, sem pensar em não gostar.É um amor que pertence.

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