sábado, 13 de agosto de 2016

A CULTURA E A REINVENÇÃO DA EUROPA (*)

Na contingência das grandes crises, quando o horizonte de esperança parece diluir-se na descrença e no cepticismo, pouca coisa resta à “matéria dos sonhos” que a humanidade tece, para a humana respiração dos povos, a não ser voltar-se para aqueles valores (onde a cultura tem peso decisivo) que, por serem comuns à intemporalidade, não se perdem na efemeridade dos dias.
Na restrita janela onde estamos e se pode olhar o rumor do mundo, surge então a cultura como um fogo primordial, na sua dimensão libertadora das consciências, pão elementar do pensamento, força de um imaginário capaz de desfazer mitos, que acontecem sempre que o homem já não cabe na realidade e fica preso a atavismos. A projeção da cultura sobre as palavras e as coisas é a fonte de um pensamento com tal grau de racionalidade que até é capaz, como alguém disse, de tornar Sísifo feliz.
Não poucas vezes, foi a olhar para dentro desta ideia que se abriram caminhos de dignidade humana, conquistas irreversíveis de marca social, na obstinada recusa da negação do homem, que é a soma daqueles crimes contra a humanidade com a sua nomenclatura de valas comuns, com os seus cemitérios ao luar de gente que foi tratada como gado, com os holocaustos que foram muitas mortes de Deus (e da própria poesia!) ou com os gulagues, tudo infernos domesticados, inscritos na vida colectiva como fatalidades cirúrgicas -- como agora se diz dos bombardeamentos! -- organizadas pela História.
A Europa, sedimentada por uma longa e diversa cultura – que é um traço do seu adquirido civilizacional – foi, no rescaldo dos tempos sombrios e ignominiosos, território de afirmação de valores, ousando contrapor aos arautos para quem o homem era coisa nenhuma, a antiga e irrecusável ideia clássica de que, afinal, o homem é (ou deve ser) a medida de todas as coisas, fulcro e razão de todas as políticas. A construção europeia, a Comunidade Europeia, considerado o mais fantástico projeto político do nosso tempo, conferiu à paz, à cultura da paz, um valor supremo, porque aí radicava o cimento essencial para a edificação de uma geografia da Europa assente na solidariedade, no Estado social, na diluição do abismo das desigualdades, na afirmação dos direitos humanos, denominador comum da liberdade.
Olhamos para a história, revemo-nos em momentos exaltantes, mas os tempos voltam a ser sombrios e os resquícios da negação do homem transformam-se em banalidade dos males, face a uma Europa que pendurou no bengaleiro dos dominantes interesses financeiros, muitos dos seus valores, antes intocáveis. Às vezes, o desprezo pelos direitos humanos é de tal força, vemos os emigrantes morrerem nas praias e o Mediterrâneo tornar-se num enorme cemitério (o que não diria Braudel, ele que sonhou uma Europa do Atlântico aos Urais!) que parece estarmos a ouvir Darwin avisar que “a imaginação humana é um instrumento de sobrevivência”.
Então, voltamos à perplexidade de Jean Monnet sobre a cultura, que deve ser também a nossa comum perplexidade. Um observador distante, que tivesse saído subitamente do quotidiano europeu, como ele era há década e meia, havia de interrogar-se se era este o chão do legado humanista da Europa e da sua expressão cultural, ao mesmo tempo vivência das obras dos grandes criadores e síntese da cultura das pequenas pátrias que, pela originalidade e fundura da mensagem criadora, alcançam dimensão universal. E mais surpreendente lhe pareceria decerto que, no século XXI, aqui e agora, fosse preciso repetir que a Europa renovou o conceito de cultura como património material e imaterial inscrito no espaço e no tempo e é nessa aventura que as regiões se devem reinventar, enriquecendo e afirmando a diversidade do espaço europeu. Nessa compreensão se inscreve a redobrada importância conferida ao imaginário e ao sentido de diversidade como expressão universal da cultura tradicional.
Este território onde estamos, tão ancorado a uma Raia Sem Fronteiras (Lembremo-nos do poema de Torga: “De um lado terra, doutro lado terra;/ De um lado gente, doutro lado gente;/ Lados e filhos desta mesma Serra,/ O mesmo céu os olha e os consente(…)”, estas terras são bem a síntese da riqueza material e imaterial, pois têm muitas singularidades monumentais, podemos sempre falar em coisas únicas como Monsanto ou Egitânia, mas também das sonoridades que vêm do fundo dos séculos, porventura produto de miscigenação civilizacional, como são os adufes na sua expressão influenciadora da música, viajando por cima de todas as fronteiras, pouco importando de onde veio e para onde vai.
O que interessa valorizar é que se trata de uma caligrafia sonora de linguagem universal. Linguagem que, partindo da particularidade do lugar da Idanha, onde se situa a sua génese, se tornou elemento cultural vivo da Europa, com o reconhecimento científico da UNESCO.
Poderemos dizer, como Steiner, que não é possível fazer uma cartografia da Europa sem a dimensão cultural, incluindo aqui o ensaísta a convivialidade dos cafés, com a fortíssima memória da cultura dentro deles e na espacialidade urbana.
Num tempo em que, de várias formas e feitios, se subalterniza a cultura, afastando-a da emergência do quotidiano, talvez valha a pena lembrar que o mundo está assinalando o quarto centenário do nascimento de dois vultos da cultura europeia, Cervantes e Shakespeare. Sem eles, a Europa não seria certamente como é.
E que seríamos nós, também, sem outros criadores, sem a arte e os artistas de que fala Malraux em “As Vozes do Silêncio”, sem a música ou a grande literatura, que atravessam e movem a roda da história da Europa? Que seríamos nós, sem Ulisses a inscrever Ítacas no coração da gente, sem os clássicos recomendados por Italo Calvino, ele que foi capaz de nos ensinar a amar as cidades como pontos de trocas e de afectos? Que seríamos nós sem Goethe, sem Kafka, sem Dante, sem Proust e Montaigne, ou sem Becket? E que seria também a Europa, sem os nossos poetas, sem Camões, sem Pessoa, sim, sem Pessoa, que fez poeticamente, como nenhum outro, o retrato da Europa, numa fabulosa geografia de metáforas, em que Portugal é os olhos com que a Europa fita o mundo: ”Os olhos com que fita é Portugal”.
Quando falamos da Europa falamos destes e de outros gigantes da cultura, pensando no fio temporal com que outro poeta, T.S. Elliot, nos convocou a olhar com outros olhos, pois, como ele disse, todo o tempo futuro está contido no tempo presente e no tempo passado. A cultura europeia faz parte de um tempo que tem dentro de si todos os tempos.
Termino apropriando-me de versos de Jorge de Sena, transformando o que ele disse para a poesia, em cultura: nunca a cultura salvou a Europa. Mas nunca a Europa será salva sem a cultura.

Fernando Paulouro Neves
Termas de Monfortinho, Hotel Fonte Santa
12 de Agosto de 2016
Clube de Estrasburgo

(Comissão da Cultura)


(*) Participei ontem, no Hotel Fonte Santa, em Monfortinho, numa iniciativa que bem merecia a atenção da distraída informação portuguesa (distraída para as questões verdadeiramente importantes, já se vê), pois se tratava de debater a Europa na articulação com a matriz cultural e humanista da sua caminhada civilizacional e do seu futuro depois do Brexit. O Club de Strasbourg, que agrupa mais de sessenta cidades, trouxe a Monfortinho uma temática de grande atualidade: Europe’s cities to the rescue after “Brexit”.  A realização do debate em território idanhense ficou a dever-se ao empenho da jornalista Fernanda Gabriel, a quem a Idanha deve já serviços inestimáveis. O município da Idanha preside neste momento à Comissão de Cultura do Club, o que não é estranho se pensarmos que este território viu reconhecida pela UNESCO a importância da riqueza musical da Idanha, designadamente do adufe. Armindo Jacinto destacou essa circunstância sublinhando que o debate sobre a Europa acontecia ao mesmo tempo que estava a realizar-se na Idanha o “Boom Festival” que reúne cerca de 50 mil pessoas vindas de 150 países, numa expressão multicultural única.
Aos representantes do Club de Strasbourg, juntaram-se no diálogo plural que se prolongou por toda a manhã, a euro-deputada Ana Gomes e Elisa Ferreira, vice-governadora do Banco de Portugal. Nos painéis, só para destacar dois temas, sublinho as intervenções do Prof.
Fernando Freire (a relação entre a economia e a cultura) e de Jack Hanning, que desmontou as mentiras e mistificações que conduziram ao Brexit. Excelente foi também a visita à Egitânia, guiada por Paulo Longo. Uma jornada em cheio.

Sem comentários:

Enviar um comentário