sexta-feira, 5 de agosto de 2016

A ESPERANÇA TEM SEMPRE RAZÃO

No frémito da noite mais triste, quando os redutos da ignomínia, tão agarrados aos dias que a infelicidade parece eterna, há uma frase fabulosa dissipadora de todas as névoas e sombras, por mais negras que sejam: a esperança tem sempre razão! Palavras com semente de inquietação, “às vezes um cristal, outras um punhal”, que alimentaram sempre o fogo da resistência contra os arautos e promotores de totalitarismos com chamas vivas ou lumes brandos, programadores de crimes contra a Humanidade. Às vezes um gesto, um punho fechado que se levanta, um verso que rompe o gueto da prisão e da tortura, outras uma canção, um simples cravo vermelho, uma bandeira, a caligrafia da Liberdade inscrita num muro de cal branca ou um cartaz a tremular ao vento. E como cenário de futuro, a ideia dentro da cabeça de que a esperança tem sempre razão.

Voltei a pensar nisso, quando ontem ouvi a notícia de que o assassino de Victor Jara tinha sido condenado a pesada pena por um tribunal da Florida, para onde tinha fugido, porque o Chile, recuperada a democracia, começara a fazer um ajuste de contas contra as feridas da memória do universo concentracionário de Pinochet. Há muitas lágrimas por enxugar nos crimes da ditadura chilena, nos milhares de mortes, nas torturas ocultas e a céu aberto, nos fuzilamentos sumários, nos mártires com rosto ou anónimos do sonho e da bondade que era a democracia popular de Allende. 

Victor Jara ficou para sempre como mártir da revolução chilena. Ele lutou com as armas que tinha na mão: uma e muitas canções. Com as suas canções e os seus poemas, ele ensinava a pensar, o que é sempre perigosíssimo para ditadores e ditaduras. E por isso, também por isso, os torcionários o torturaram brutalmente, cortando-lhe os dedos da mão (a raiva demencial contra a música), enchendo-lhe o corpo de equimoses e de balas, após o que o abandonaram numa lixeira.

Quarenta e três anos depois, o assassino é condenado nos Estados Unidos. É verdade que esta justiça a título póstumo é sempre um resto. Pedro Barrientos é o nome do criminoso. A condenação tem, contudo, uma dimensão simbólica, em louvor da memória e contra a impunidade. A esperança voltou a ter razão. Quarenta e três anos depois!

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