domingo, 7 de agosto de 2016

A LAGOA AZUL


Encontrei numa velha casa da Foz do Arelho, uma daquelas casas de praia construídas na dobra do século XIX para o século XX, uma casa sóbria, à beira da estrada, com sinais de ruína que são sempre as rugas do tempo, uma inscrição histórica aposta numa parede discreta, que dizia: “Foi neste edifício, durante a 1ª República que o Dr. Afonso Costa redigiu a Lei de Separação da igreja e do Estado instituída em 20 de Abril de 1911”. Registei o achado no bornal da memória e não pude deixar de pensar que estava, ali, face a um lugar de produção de História. Imaginei-o, até, a suspender a elaboração do acto legislativo e vir à janela respirar o mar, encher os olhos de paisagem, e voltar mais revigorado à sua faina. Então, fora ali, que Afonso Costa, estadista de referência da República e do século XX português, produzira uma das leis que mais excitou historicamente o reacionarismo ultramontano e é, do mesmo passo, um acontecimento decisivo do Estado de Direito e da modernidade da sociedade portuguesa. E pensava: aqui está uma das coisas que fez do grande estadista um dos políticos mais odiados, a quem o arcaísmo da igreja portuguesa, tão fiel ao salazarismo, nunca perdoou a ousadia legislativa!

Estava num lugar cheio de sol e de mar e fui à procura do contexto e das suas particularidades, como se estivesse a perguntar-me: que vêem os nossos olhos quando olham a realidade? Olhei para parar e ver.

Há um braço de mar que alimenta a lagoa e esta espraia-se em ilhas que só a maré alta, quando vier, há-de submergir outra vez, para depois voltarem a aparecer num ciclo de vida que é sempre surpreendente. As ilhas, que habitam a diversidade da lagoa, tomam tonalidades verdes, que o azul translúcido das águas, trazido pelo mar, aliado à luz forte do sol, transforma em deslumbramento para os olhos.
Da esplanada, que domina o horizonte, o que o olhar abarca é uma mistura de imagens que se perdem na lonjura do mar e dos pinhais, lá ao longe, que as dunas defendem e o olhar tem dificuldade em limitar, pois depois tudo se dissolve num céu que se confunde com o cinzentismo longínquo do mar, um pouco à paleta de Turner, até que a abóbada solar se torna azul como se fosse espelho do mar próximo e prateado que tenho à minha frente. Mas é a lagoa, na placidez das suas águas calmas, que apetece fixar na tarde quente de Agosto. Agosto azul, como dizia Teixeira Gomes, nas páginas espantosas da sua literatura, Agosto azul, digo eu, agora, enquanto uma gaivota, em voo rasante, mergulha e leva um peixe para o sustento. Agosto azul, volto a dizer, enquanto a fixo uma última vez a ela e ao seu mundo elemental. As ilhas ainda lá estão, mas o braço que liga a lagoa ao mar, começa a sua faina de renovação.

1 comentário:

  1. Recordar e honrar a memória de Afonso Costa é uma homenagem ao maior vulto da 1.ª República.

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