terça-feira, 9 de agosto de 2016

IRREALIDADES QUOTIDIANAS

No outro dia, numa sessão de que já aqui falei, o escritor João de Melo trouxe para a conversa uma inquietação comum, questão obrigatoriamente presente, se a esquerda quiser debater a sério o presente e o futuro do país. Falava o autor de “Gente Feliz com Lágrimas” do gueto em que o deve-haver de uma sociedade cada vez mais configurada aos interesses e desvarios do capitalismo, na sua versão ultraliberal, colocou os mais jovens da tribo. A precariedade tornou-se o altar onde se imolam as esperanças dos jovens e se fecham os horizontes de futuro. Há qualquer coisa de irracional quando um país (lembram-se de um sujeito chamado Passos Coelho?) não tem vergonha em considerar dispensáveis os mais jovens, muitas vezes altamente qualificados, como se fossem um fardo insuportável que o Estado não comporta.
A este sintoma de doença fatal de um país, somam-se outros aspectos que exemplificam como o universo político que dá acesso aos poderes está inquinado por outras irracionalidades, próximas do domínio daquelas cenas que podem alimentar o teatro do absurdo. Lembremo-nos apenas da roda dos interesses clientelares e das lógicas de partidarite que, tratando o mérito como questão supletiva, também cortam pernas ou fecham horizontes aos jovens. Há, sobretudo, aquela caricatura que avisa a navegação: quem não tem cartão dos partidos do poder (visava-se o bloco central) é ladrão de si próprio.
Umberto Eco escreveu um excelente livro a que chamou “A Irrealidade Quotidiana” em que comenta com o mesmo à vontade coisas simples e complexas do dia-a-dia. E, de facto, às vezes, sobretudo na política, realidade e irrealidade transformam-se em fronteiras difusas. O cronista espanhol Juan José Millás escreveu há tempos no “El País” uma crónica subtilmente intitulada “Shangri-La”. Dizia ele que quem lê “páginas da imprensa dedicada à política e as dedicadas à realidade e lhe parece mentira que venham no mesmo jornal, pois as primeiras falam de Marte e as segundas da Terra”.
O cronista fala, também, dos mais jovens da tribo para explicar o seguinte: “A melhor notícia que hoje pode receber um pai não é que o seu filho tenha encontrado um trabalho real, pois se é real será uma merda, mas que tenha conseguido um lugar na irrealidade. Nosso filho fugiu do mundo real, diz o pai à mãe, tapando o micro do telefone.
-- Que descanso! -- exclama a mulher. – E em que irrealidade foi cair?
-- Na da política! – responde o homem, com um suspiro de alívio. – Já podemos morrer…”
Lá como cá. A irrealidade quotidiana ou a importância do cartãozinho do partido para não se ser ladrão de si próprio…

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